• Cabotagem e navegabilidade no Rio Grande do Norte

    Em 25 de novembro de 1839, o Rio Grande do Norte conhecia a navegação a vapor, quando aqui aportava o primeiro navio. O segundo foi o São Sebastião que trouxe Caxias a Natal, em 16 de janeiro de 1840. O desembargador e escritor Antônio Soares, citado por Câmara Cascudo, afirma que o primeiro vapor a entrar no Porto de Natal foi em 25 de novembro de 1829 e não em 1839, como muitos afirmam.

    A Companhia Pernambucana de Navegação Costeira à Vapor foi a primeira a realizar o serviço de cabotagem no Rio Grande do Norte. Pelo Decreto Régio nº 1.113, de 31/01/1853, foi concedido o privilégio exclusivo para navegar costeiramente entre os portos de Maceió e Fortaleza. O contrato obrigava a empresa a trafegar seus vapores nos Portos de Natal e Macau.

     A partir de 27 de novembro de 1857, a Província passava a subvencionar a referida empresa com 4:000$ por ano, a fim de que o porto de Mossoró fosse contemplado nas escalas do Norte. Nessa época, surgiram outros vapores, como o Pirapama e o Iguaraçu e outros.

    O armazém construído no Porto de Jurema no Rio Mossoró, em janeiro de 1866, falhou com o Mamanguape. Esse armazém foi transferido para o sítio das Areias Brancas, onde em abril de 1867, chegava o barco inglês Calderbask, consignado à Casa John Ulrick Graf, Mossoró. Nessa época, o Pirapam”, vapor da Pernambucana, começava seu tráfego. Isso deu origem ao desenvolvimento comercial de Areia Branca, produtora de sal e considerada o sétimo porto do Brasil em volume de exportação no período.

    Depois surgia a Companhia Brasileira de Navegação a Vapor, originando a Loyd Brasileiro. Em julho de 1875, chegava a Natal o vapor São Jacinto, fazendo a primeira viagem da escala. O acesso a Barra de Natal pelos navios, sempre foi muito difícil, já em 1647, Barléu dizia ser “dificílima”. Os barcos de grande calado, sobretudo, ficavam fora do rio.

    Mais foi por intercessão e influência do cearamirinense doutor José Pacheco Dantas que o Loyd Brasileiro, fez entrar seu primeiro navio no porto de Natal, em 1902, denominado “Planeta”. Essa dificuldade de acesso até hoje existe, não na mesma dimensão, porque escavações foram feitas para facilitar o ancoramento de navios no rio Potengi. Com a inauguração do Cais da Docas, em 24/10/1932, o atracamento do “Campos Sales”, pertencente ao Loyd Brasileiro, abria-se o Porto de desembarque marítimo da cidade.

    Esta continuidade ainda existe, não só apenas no canal do leito do rio, agora temos um outro impedimento, o absurdo da construção de uma ponte (Newton Navarro), deixando claro o amadorismo, ausência de planejamento e de competência, ao se construir uma ponte baixa, no acesso de um porto de uma cidade turística. Impedindo a entrada de grandes navios cargueiros e de turismo, os grandes cruzeiros.

    Importante citar, que desde que a ponte Newton Navarro foi inaugurada e o trânsito liberado para o tráfego de veículos em 21 de novembro de 2007, até os dias atuais, ainda não foram construídas as defensas dos pilares da referida ponte. 

    A situação deixa clara a incompetência e falta de entendimento dos gestores do nosso estado do significado da palavra prioridade. E já se passaram vários gestores à frente do estado. Na verdade, acredito que estão esperando acontecer um acidente (abalroamento de um navio), com graves consequências para a ponte, para se pensar em uma medida de proteção.

    Muito importante aprender com os erros cometidos no passado! O rio Potengi era navegável, escoava toda produção Macaíba, Natal e vice-versa. Mas, eis que a construção da ponte de ferro de Igapó fez o comércio de Macaíba enfrentar grandes reveses do asfixiamento de seu porto, provocado pelo bloqueio do rio com a construção da ponte baixa, o que eliminou a passagem de barcos de maiores portes. 

    Vale salientar que o primeiro projeto da ponte não previa o bloqueio do rio. O governador Alberto Maranhão havia previsto uma ponte móvel em 1904, que traria benefícios para a capital, mas conservava o transporte do rio.

    A ponte de ferro de Igapó era o principal símbolo do confronto entre os dois meios de transportes, ferroviário e fluvial, por ter bloqueado a passagem de barcos naquele ponto do rio.

    A ponte marcava o fim de uma era no rio Potengi. O transporte intenso que acontecia no estuário é bruscamente interrompido pela altura da ponte, que bloqueava o acesso para um grande número de barcos que iam e vinham à Macaíba e ao porto de Guarapes.

    Isso mostra que a ausência de planejamento e estratégias entre as gestões governamentais em nosso estado é antiga e não nos deixa ensinamentos.


  • Do papo de terraço ao projeto de lei

    Muitas coisas importantes nascem nos bate-papos nos terraços das casas de praia nos veraneios. Lembro-me de uma tarde linda, na casa de praia dos pais do, na época vereador e presidente da Câmara Municipal de Natal, Paulinho Freire, Seu Zilson e Dona Evane. Na ocasião também estavam presentes seus filhos Zilvane, Duda, Serginho e Paulinho, em uma mesa grande, rodeada de amigos diversos. Gostaria aqui de fazer uma citação especial ao saudoso Antônio Wagner, o querido tio Toinho, irmão de Dona Evane e à excepcional bibliotecária cearamirinense, Maria Lêda da Câmara.

    Neste dia tive a oportunidade de conversar muito com dona Lêda sobre a história da Terra dos Verdes Canaviais, a nossa Ceará-Mirim. Ela me falou sobre vários filhos ilustres da cidade, em especial, o dr. José Pacheco Dantas. Ele foi o primeiro de uma família de 14 filhos e passou sua infância entre a cidade e o Engenho União, propriedade de seu pai que fabricava simplesmente o melhor açúcar mascavo de Ceará-Mirim.

    Segundo Maria Lêda, em 1897, Pacheco Dantas, já no Rio de Janeiro, trabalhou em vários jornais, chegando a fundar o Gazeta do Norte, só para difundir as belezas do Nordeste.  Com muito esforço e dedicação ele se forma em medicina em 1905, tendo se graduado também em odontologia e farmácia. Ele foi um grande lutador e defensor das estradas de ferro e, por sua intercessão e influência, o Loyd Brasileiro fez entrar seu primeiro navio no porto de Natal, em 1902, o Planeta.

    Percebendo meu grande interesse por este rico pedaço da história, dona Lêda prometeu me passar mais informações e tempos depois, fui agraciado com um material muito interessante. 

    O projeto de lei

    Certo dia, ao chegar no restaurante Buongustaio, fui chamado por alguns amigos que estavam numa mesa, entre eles, Alexandre Mulatinho, Arturo Arruda e o, na época deputado federal, Felipe Maia. Este, me indagou sobre a história do Rio Grande do Norte e, imediatamente, aproveitei para lhe contar da pesquisa que havia realizado, através do IAPHACC, para denominar o trecho ferroviário de Natal para Ceará-Mirim, com o nome do dr. José Pacheco Dantas.  O deputado achou muito interessante e se prontificou para apresentar o projeto.

    Para minha imensa satisfação e para o bem da história do Rio Grande do Norte, em cinco de novembro de 2013, o projeto foi apresentado e depois, se transformou na Lei Ordinária nº 13624/2018. Em janeiro de 2018, o trecho ferroviário da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), entre as cidades de Natal e Ceará-Mirim,  foi denominado Ferrovia Doutor José Pacheco Dantas.

    Quem foi José Pacheco?

    José Pacheco Dantas nasceu em 1878, no vale de Ceará-Mirim e, em 1900, foi para o Rio de Janeiro, onde cursou três graduações, até chegar ao jornalismo. Seu maior desejo era expressar o que de melhor havia no ainda pouco conhecido nordeste brasileiro. 

    Na então capital federal, doutor Pacheco Dantas colaborou em vários jornais, nos quais escrevia artigos cobrando as atenções da União para o RN e para a sua cidade natal. Essa era a maneira que ele havia encontrado de não perder os vínculos com nossa terra e  de divulgar as belezas do Nordeste.

    Doutor José Pacheco Dantas faleceu no dia 29 de julho de 1961, e hoje é nome da biblioteca municipal e de uma rua na cidade de Ceará-Mirim. Sua história sempre será ligada ao desenvolvimento ferroviário do Estado do Rio Grande do Norte. 

    Acredito que é muito importante lembrar que tudo isso só foi possível graças às informações de Maria Lêda da Câmara.

    A ferrovia

    Na época, o trecho ferroviário entre Natal e Ceará-Mirim ainda estava em projeto pelo Ministério de Viação e Obras Públicas e pela Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte. As forças políticas ligadas à cultura algodoeira queriam alterar o trajeto inicial, fazendo com que a ferrovia mudasse de Natal para a cidade de Macaíba. Graças aos fortes argumentos de José Pacheco, juntamente com prestigiosos parlamentares da época, sobre a necessidade de exportar os produtos do vale açucareiro, conseguiu-se que o percurso não fosse modificado, mantendo o projeto original. 

    Em 13 de junho de 1906, o presidente Afonso Penna deu início à operação do trecho. 

    Cartas para Maria Lêda

    Como declarou o saudoso Ruy Pereira Júnior, ex-prefeito de Ceará-Mirim, Maria Lêda construiu uma história brilhante durante o período que esteve à frente da biblioteca Municipal José Pacheco Dantas. 

    Em uma das cartas, escritas pelo jornalista e historiador Nilo Pereira, ele assim declara:

    “É curioso: no mesmo momento em que recebo sua carta, que é um poema, Veríssimo de Melo me telefona para avisar que no dia 08 de agosto [1985], deverei me pronunciar em Natal em uma conferência na ADESG. Isso significa que no dia seguinte aí estarei para matar saudades, assinar o ponto no livro da biblioteca, e para rever minha boa amiga Maria Lêda da Câmara, que é uma flor de gentileza e de refinada educação, e uma servidora incansável da cultura e do saber. Muito obrigado por sua carta. Posso dizer, agora, que valeu a pena demorar a minha visita para receber palavras tão belas e generosas, estão guardadas não apenas entre os meus documentos, mas, principalmente, no meu coração. Abraço de amizade sincera. Nilo Pereira.”

    Após o desligamento de Maria Lêda da biblioteca, sua amiga e ex-funcionária Anete Varela, assim declarou em uma carta, em 02 de abril de 1989:

    “Prezada Lêda,

    A sua saída do cargo que ocupava na biblioteca Dr. José Pacheco Dantas, abalou o coração dos seus amigos e admiradores, pelo menos eu acho que a revolta foi geral! Você, Lêda, amava, tinha zelo e ciúme por tudo que se dizia biblioteca. Em cada canto do prédio, você deixou uma parcela do seu coração bondoso, porque você, Lêda, amava a biblioteca como se ela fosse carne de sua carne e sangue do seu sangue. Agora, em cada flor que desabrochar no jardim que você fez e tanto admirava, vai exalar o perfume indelével da sua saudade! Você, Lêda é mesmo insubstituível como eu disse nos versos que estavam no mural. Nunca falei tanta verdade! Mas um dia, quem lhe fez tanta ingratidão, venha a pagar e Deus que tudo vê e sente, traga para você a paz e felicidade tão desejada. Um grande abraço da sua amiga grata que lhe preza e admira. Anete Varela.”

    Minha amiga, Maria Lêda da Câmara, escrevo este texto para lhe agradecer pelas informações em em conversas e documentos, que culminaram na aprovação da lei.

    Quanto à biblioteca, foi um absurdo o seu desligamento, mas isso é fruto de gestores descompromissados com o serviço público. Ainda hoje, isso está acontecendo em todo país, é uma pena. O que importa é que seu legado ficou guardado com as pessoas que lhe conhecem e frequentavam a biblioteca na sua gestão.  Sendo solidário e grato, deixo um abraço para você, pelos relevantes serviços prestados ao nosso estado. 

    E para os que não a conhecem, ela é tia do atual prefeito de Ceará-Mirim, o advogado Júlio César Soares Câmara, e de Antônio Henrique, pré-candidato a prefeito da cidade.

    E para concluir do papo no terraço só falta a confecção das três placas que devem ser instaladas nas estações de Natal, Extremoz e Ceará-Mirim. Acredito que além de citar o deputado e o projeto de lei, deveria certamente ter uma referência à Maria Lêda da Câmara que, como disse o jornalista e escritor Nilo Pereira, foi uma funcionária pública incansável.


  • Rota do Sol – avenida Engenheiro Octávio Tavares

    Seguindo nosso roteiro por nomes de ruas e pontes da capital potiguar, vamos hoje até a avenida Engenheiro Octávio Tavares, a Rota do Sol. Realizei a pesquisa como membro do Instituto IAPHACC, juntamente com moradores da comunidade de Pirangi do Norte/Pium, na cidade de Parnamirim. As informações que recebemos relatam que a primeira estrada de Natal a Pirangi do Norte, foi aberta por um engenheiro da prefeitura de Natal, chamado Octávio Tavares.

    Claro, partimos na busca de saber mais sobre este homem. Quem era Octávio Tavares? Filho do coronel Olímpio Tavares e Amélia Augusta, nasceu na cidade de Recife/PE, em 06 de setembro de 1897. Ele se casou com Dulce da Silva Pereira Palma Tavares com quem teve seis filhos. Formou-se na Ohio Northern University, na cidade de Ada, Estados Unidos, em 1920, onde adquiriu três diplomas: engenheiro civil, engenheiro arquiteto e engenheiro eletrotécnico.

    Chegou a Natal recém-formado, no início da década de 1920, para gerenciar e operar as reformas na rede de captação de águas pluviais no bairro da Ribeira. Ao continuar na cidade, atuou junto ao poder público e ao clero, realizando gratuitamente reformas nas igrejas. 

    Um de seus mais importantes projetos foi o da nova catedral, elaborado também na década de 1920, com detalhes neogóticos. A localização era prevista na antiga praça Pio X, na Cidade Alta, onde hoje se encontra a Catedral Metropolitana de Natal. O projeto não foi fundado no endereço devido aos altos custos da obra.

    Já em 1928, Octávio foi convidado para dirigir as obras empreendidas pelo recém-criado Departamento de Agricultura, Indústria, Comércio e Obras Públicas, através da portaria nº 701.

    Além de sua participação em obras de infraestrutura urbana, atribui-se a Octávio Tavares a execução do edifício da Saúde Pública, situado na Junqueira Aires, Cidade Alta, um projeto do Arquiteto Giácomo Palumbo, além do projeto e execução do prédio da Alfândega, na Ribeira. Octávio atuou também como professor de matemática no Colégio Atheneu Norteriograndense durante vários anos.  

    Em 1933, a questão do abastecimento de água em Natal foi levantada pelo engenheiro Octávio Tavares, que apresentou ao interventor federal Mário Câmara um relatório sobre condições desse abastecimento, indicando algumas medidas para o melhoramento do serviço. No informe, ele propôs a substituição da rede existente que se encontrava danificada por causa da precariedade dos canos já deteriorados. 

    Das propostas de Tavares, seriam destacadas ainda a pequena barragem de 4,4 metros na lagoa Manoel Felipe, a pequena barragem da lagoa Seca, a instalação de grupos motor-bomba nestes pontos e a observação repetida das descargas e estudos pluviométricos.

    Em Pirangi do Norte, Octávio Tavares construiu, além da estrada Natal-Pirangi, diversas obras públicas, dentre elas, a construção de um cacimbão no local onde hoje funciona a sede dos Correios e Telégrafos. 

    A denominação da avenida Engenheiro Octávio Tavares, foi iniciada na reunião ordinária do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia – CREA/RN, de nº 610, em 2013 e foi aprovada por unanimidade de votos, em sessão presidida por Modesto Ferreira dos Santos Filho.

    Eu, Ricardo da Silva Tersuliano, estava neste grande momento, como fundador e presidente do Instituto IAPHACC. Junto comigo na proposição, estavam João Maurício Fernandes de Miranda, arquiteto, e Aurélio Tavares Marinho, neto de Octávio Tavares.

    Mais tarde, o projeto de lei nº 406/2021, processo nº 3776/2021 foi apresentado e aprovado na Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Norte, pelo deputado Gustavo Carvalho e sancionado pela governadora Fátima Bezerra. O projeto foi transformado na lei 11.294, de 14 de dezembro de 2022.

    O trecho da RN 063, que compreende o entroncamento da RN-063 com a Rua Alfredo Dias de Figueiredo até a Praia de Pirangi do Norte, no Município de Parnamirim/RN, foi denominado Rota do Sol – avenida Engenheiro Octávio Tavares. A lei foi publicada no Diário Oficial do Estado – DOE, sob o nº. 15.325 do dia 15/12/2022, na página 4.

    Trata-se de uma denominação ainda desconhecida, pela ausência de instalação de placas sinalizadoras pelo DETRAN/RN. Ação que exige celeridade por se tratar de uma das avenidas mais importantes de acesso ao litoral sul potiguar.

    Fonte: Livro …antes que a memória se apague – João Maurício Fernandes de Miranda, e entrevistas pessoalmente com o autor. 


  • A responsabilidade em denominar espaços públicos

    Aos poderes legislativo e executivo, em suas respectivas esferas, é necessário observar e criar requisitos que devem ser preenchidos para denominar logradouros públicos com coerência e muita responsabilidade, de maneira que não cometamos erros e nem causemos prejuízos na história de nossa cidade, apontando erros e falando em possíveis reparações.

    A primeira denominação: a da Ponte Newton Navarro. Na época em que estava se aproximando o término de sua construção, no governo Wilma de Faria, quando eu era assessor parlamentar do deputado estadual Paulinho Freire, me lembro que a deputada Ruth Ciarlini, de Mossoró, apresentou um projeto de lei visando denominar a ponte recém-construída de Ponte Newton Navarro.

    Por ser morador da praia da Redinha, pesquisador, amante da história e conhecer muito bem a história dos 32 pontos históricos existentes na margem do Rio Potengi, solicitei ao deputado Paulinho Freire a apresentação de um projeto de lei para denominar a ponte recém-construída de Ponte Luís Romão. 

    O deputado Paulinho apresentou o projeto e me lembro que após, conversei com a governadora Wilma pedindo e explicando a ela porque o nome deveria ser Luís Romão. Mas a Governadora, mesmo assim, sancionou a lei denominando a ponte de Newton Navarro. 

    Não desmerecendo o nome de Newton Navarro, mas qual era a função da obra a ser denominada? Quem era Luís Romão? E Newton Navarro? A função da obra era a travessia de Natal à Redinha, pelo Rio Potengi. 

    Newton Navarro era um artista plástico, Luís Romão, um empresário que foi pioneiro na travessia do Rio Potengi de Natal para Redinha. Ele criou o serviço de botes à velas e lanchas a motor que realizavam a travessia no Potengi, além de ter sido pioneiro também no serviço de radiodifusão em Natal.

    A segunda denominação: o aeroporto Aluízio Alves. O governador Aluízio Alves prestou relevantes serviços ao nosso estado, claro, mas em se tratando dos requisitos que deveriam ser preenchidos e observados, como seu vínculo com a função da obra, esta denominação também deixou muito a desejar. 

    Se fossemos partir do princípio de ser um governante, deveríamos indicar o nome do ex-governador Juvenal Lamartine de Faria, que foi o presidente da primeira diretoria do Aeroclube/RN. Como grande amante da aviação e um visionário, Juvenal foi responsável pelo surgimento da Escola de Pilotos, uma das mais tradicionais escolas de aviação brasileira.  Na época, o aeroclube de Natal foi até filiado ao aeroclube do Brasil.  Lamartine também foi pioneiro na abertura dos primeiros campos de aviação no interior do Estado do Rio Grande do Norte. 

    E se não fosse ele, o patrono do aeroporto, poderíamos indicar por merecimento o nome de um dos pilotos da primeira turma do Aeroclube do Rio Grande do Norte: Fernando Pedroza, Eloi Caldas, Aldo Cariello, Plinio Saraiva e Edgard Dantas. 

    Estes erros gravíssimos cometidos por atos politiqueiros, ou por orgulho dos nossos gestores, estão destruindo e empobrecendo a nossa história. Esta mentalidade pequena e egoísta precisa ser banida do serviço público em nosso país. 

    O Instituto IAPHACC – Instituto dos Amigos do Patrimônio Histórico e Artístico Cultural e da Cidadania, tem estudado a possibilidade de buscar estas correções junto ao Poder Judiciário. 

    E aqui queremos deixar uma dica aos nossos parlamentares: deveria existir uma lei que qualquer denominação a ser feita deveria, obrigatoriamente, obedecer a alguns critérios ou no mínimo, ser submetida ao crivo de alguns historiadores.


  • Uma história do Palácio Felipe Camarão, endereço desejado por muitos

    Nosso passeio de hoje pela história visita o Palácio Felipe Camarão, sede da Prefeitura Municipal de Natal, para onde muitos almejam se mudar no próximo ano.

    A construção do prédio da antiga Intendência Municipal, em sua primeira etapa, foi realizada após a demolição de um antigo casarão colonial de linhas simples. Nasceu ali a sede do poder executivo municipal, o Palácio Felipe Camarão, projetado e construído pelo italiano Miguel Micussi, nascido em 1870, na cidade de Udine.

    Miguel Micussi serviu ao exército num batalhão de engenharia na Áustria, onde aprendeu a arte da construção civil. Muito jovem, veio para o Brasil, para Minas Gerais, e lá conheceu e se casou com Querubina. Depois, veio para nossa cidade, a escolhida para morar e viver até o fim de sua vida. Em Natal, Micussi fez várias construções públicas e privadas, dentre elas podemos enumerar as seguintes:

    • Sede da Liga Artístico-Operária, na avenida Rio Branco;
    • Sede do Hospital Varela Santiago, na avenida Deodoro da Fonseca (tombado pela Fundação José Augusto em 1992);
    • Coluna onde se encontra fixado o busto do padre João Maria, na praça de mesmo nome;
    • Residência da família Cícero de Souza, na esquina da avenida Prudente de Morais com a rua Potengi, local onde hoje encontra-se construído o Flat Potengi, no bairro Petrópolis;
    • Monumento dos Heróis da Revolução de 1817, na praça André de Albuquerque.

    A inauguração do imponente Palácio Felipe Camarão foi realizada no dia 7 de setembro de 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência do Brasil.

    Na época governava o Estado do Rio Grande do Norte Antônio José de Melo e Souza, o presidente da Intendência Municipal era Teodósio Paiva. O contrato de construção fora firmado pelo Intendente Fortunato Aranha.

    Certa vez, li um texto, que informava que no dia da inauguração do prédio da Prefeitura de Natal, 07 de setembro de 1922, Micussi não esteve presente, por estar cuidando do funeral de sua esposa. Segundo o texto ele teria morrido seis meses depois, em março de 1923. Seus filhos ficaram órfãos, sendo os três adotados por amigos da família, um deles foi adotado por D. Amélia Duarte (Viúva Machado).

    Na primeira gestão da Prefeita Wilma de Faria, foi feita a recuperação do Palácio Felipe Camarão já desgastado pelos setenta anos da edificação. No dia 15 de setembro de 1992 o Palácio ficou todo o dia aberto à visitação pública, sendo realizada uma solenidade comemorativa, ocasião em que foi aposto o retrato de Miguel Micussi, com presença de Américo Micussi, filho do homenageado.

    Aos visitantes foi distribuída uma plaqueta ilustrada, narrando a origem e a presença dos governantes que marcaram aquele espaço histórico da cidade.

    Fonte: 400 Nomes de Natal.


  • Estação da Coroa, Padre, ou Pedra Preta: ruínas com nossa história

    A Estação da Coroa, Padre, ou Pedra Preta, como muitos a chamavam (hoje ruínas), foi a primeira estação ferroviária do primeiro trecho ferroviário da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte – (E.F.C.R.G.N.).

    O trecho era composto por três estações ferroviárias, sendo elas as seguintes: Estação da Coroa – Natal, na outra margem do rio Potengi, em frente ao caís da Tavares de Lira na Ribeira (hoje ruínas); Estação de Extremoz; e Estação de Ceará-Mirim. Todas elas inauguradas pelo presidente Afonso Pena, no dia 13 de junho de 1906.

    Os trens paravam na estação da Coroa, do outro lado do rio Potengi, de frente para Natal, vindo da Estação de Ceará-Mirim. Era nesta última onde passageiros e mercadorias eram atravessados para o caís da Tavares de Lira, na Ribeira, por embarcações.

    Em 20 de abril de 1916 concluiu-se a construção da ponte de ferro de Igapó.

    Posteriormente, com o fim dos imbróglios das desapropriações na ferrovia na Ribeira, finalmente foram ligados os trilhos à Esplanada Silva Jardim e à Estação da Coroa, que hoje está desativada.

    Por nossa sugestão, o trecho ferroviário Natal-Ceará-Mirim foi denominado “Ferrovia Doutor José Pacheco Dantas”. A iniciativa se concretizou através do Projeto de Lei nº 6.699/2013, do então deputado Felipe Maia.

    O Dr José Pacheco Dantas foi um grande defensor da construção do trecho que hoje leva seu nome.

    Ainda sobre a Estação da Coroa, na condição de presidente do Instituto IAPHACC,provocamos a 41ª Promotoria do Ministério Público Estadual (MPE), solicitando proteção para o local onde repousam suas ruínas. Na época – por uma parceria entre IAPHACC, MPE e Departamento de História da UFRN – conseguimos fazer com que a ruína da Estação da Coroa fosse inscrita como sitio arqueológico.

    Procedemos ao preenchimento da Ficha para Registro de Sítios Arqueológicos, editada nos termos da Portaria IPHAN nº 241 de 19/11/1998, que foi encaminhada ao Centro Nacional de Arqueologia. A ação garantiu proteção ao local, consoante ao que dispõe a Lei nº 3.924/1961, relativa aos monumentos arqueológicos e pré-históricos. Esta proteção, foi extensiva ao Cemitério dos Ingleses na praia da Redinha.


  • Uma história do Cemitério dos Ingleses, na praia da Redinha

    Era preciso dar assento aos marinheiros que morriam em viagens mercantes ao passar por Natal e que não eram católicos. Assim nasceu o Cemitério dos Ingleses, à margem da Gamboa do Manimbu, na praia da Redinha.

    À época, a Guerra da Secessão nos Estados Unidos abrira à produção algodoeira do nordeste brasileiro perspectivas inéditas. Bruscamente o norte-rio-grandense começou a esquecer a cana-de-açúcar e a colher algodão, de mais fácil manejo e com mercados imediatos. O governo tentou obstar a monocultura estimulando a indústria açucareira ao conceder isenções para os engenho-centrais, origem das usinas tentaculares.

    Mas o algodão atraía como uma força magnética. Várias empresas inglesas e suíças estabeleceram-se em Natal. Rapazes louros, ágeis, robustos, alegres, invadiram a sonolência pacata da cidade. Entre 1867 e 1869, a John Ulrich Graf & Cia, compradora de algodão, açúcar e sal e vendedora de fazendas foi umas dessas. O escritório central ficava na rua do Comércio. A maioria dos empregados de Ulrick Graf eram suíços ou ingleses. Relacionavam-se com a sociedade natalense, mas a religião os distanciava muito. Eram todos protestantes, luteranos clássicos. Esses rapazes morreram como moscas durante a febre amarela e o cólera-morbo.

    Os empregados de Ulrick Graff foram os primeiros a serem enterrados no novo cemitério nas cercanias do que hoje chamamos de Redinha. Eles eram chamados de ingleses.

    Cascudo relata: “Conheci dona Ana Cordeiro Xavier de Brito, nascida em 28/05/1845, natalense de boa memória. Contou-me se recordar de um inglês bonito, de nome Gemmy, fazedor de habilidades de salão. Gemmy está enterrado no Cemitério dos Ingleses.

    “Já o dr. Augusto Leopoldo informara-me que um dos sócios de Ulrick Graff era Alfred Weber. Faleceu em Natal e também foi sepultado no Cemitério dos Ingleses.

    “Em julho de 1935 visitei demoradamente o cemitério. Espalhara-se a lenda de ouro enterrado pelos holandeses. Os túmulos foram arrebentados, e dispersos os esqueletos. A ferocidade ávida destruiu tudo. A cupidez analfabeta e sacrílega nada respeitou. Apenas li, no transepto duma cruz: Whmr Eckett”.




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Ricardo Cobra