• Ilha das Flores: um retrato pungente da fome na sociedade de consumo

    E aí, tudo tranquilo com você? Espero sinceramente que sim. Como vocês sabem, sou um degustador de filmes e séries, na verdade, de tudo que o audiovisual produz. Deixei claro no último texto que não curto apenas filmes de terror, por achar o gênero sem graça, mas irei sim, a pedido do meu amigo Ionaldo (Naldo), escrever depois sobre um filme de terror que dei valor.

    Pense um pouco, você é capaz de lembrar de todos os filmes e séries que já assistiu? Se sim, você lembra quais? Quem estava na tua companhia? Porque eu, além de lembrar de todos, ainda sei com quem estava quando assisti cada um. O primeiro que assisti foi “Atrapalhando a Suate”, filme de 1983, do quarteto Os Trapalhões, composto por: Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, exibido no cine Panorama, no bairro das Rocas, cinema que alguns anos depois passou a exibir só filmes pornôs, em seguida virou igreja. 

    Quando vi esse filme, estava com meu saudoso pai, Francisco de Assis Silva (Chimba), da minha mãe Maria do Carmo dos Santos Silva (Carminha) e da minha irmã Claudia Poliana Silva, mas sem sombra de dúvidas a pessoa com quem mais fui ao cinema, foi meu primo Edgar Fonseca (Novinho), somos, inclusive, xarás de apelido.

    Do final dos anos 80 até os anos 2000, assistimos para mais de 60 filmes nos cines Rio Grande, Nordeste, Rio Verde, além dos cinemas no Natal Shopping e Midway. Vi alguns títulos como: Amor Estranho Amor, Superman 4, Robocop e Capitão América. Poderia colocar título por título, porém deixaria a resenha enfadonha.

    Apesar das plataformas de streaming, que sou usuário assíduo, não dispenso ir ao cinema, pois para para mim é um ritual assistir um filme na grande telona, acompanhando de uma pipoca quentinha.

    O curta-metragem que vou abordar nas próximas linhas traz um tema forte, que precisa ser enfrentado com responsabilidade social por toda sociedade para ser vencido. Esse tema é a fome, flagelo que quem passa por ele perde um pouco da própria humanidade. 

    O curta-metragem é: Ilha das Flores, dirigido por Jorge Furtado em 1989. Esse curta traça um panorama inquietante da fome em meio à abundância, tecendo uma crítica mordaz à sociedade de consumo. A narrativa acompanha o tomate desde sua colheita em uma próspera plantação, simbolizando a capacidade da terra de prover alimento para todos. No entanto, o tomate logo se vê em meio a uma cadeia de exploração e desperdício. Transportado para um supermercado, ele é exposto como um produto comercial, sujeito às leis de mercado e à obsolescência programada. Imperfeito e fora dos padrões estéticos artificiais impostos pelo sistema, o tomate é descartado, mesmo que ainda comestível.

    Sua trajetória o leva ao aterro sanitário da Ilha das Flores, um microcosmo das disparidades sociais. Lá, o tomate se torna alimento para porcos, enquanto crianças em situação de pobreza disputam restos de comida imprópria para o consumo animal. Essa cena brutal expõe a realidade cruel da fome no mundo, mesmo em um país como o Brasil, grande produtor de alimentos.

    Ilha das Flores não se limita a mostrar a fome como um problema individual, mas a desvenda como um sintoma da disfunção sistêmica. A lógica do lucro a qualquer custo, a valorização da estética em detrimento da nutrição e a concentração de renda nas mãos de poucos são alguns dos elementos que contribuem para a perpetuação da fome, mesmo em um mundo que produz comida suficiente para alimentar toda a população.

    O filme se destaca pela sua linguagem simples e direta, utilizando recursos como a ironia e o humor constrangedor para despertar a reflexão crítica do espectador. A trilha sonora minimalista e a narração em tom documental contribuem para a construção de uma atmosfera densa e impactante.

    Ilha das Flores é um convite à reflexão sobre os paradoxos da sociedade de consumo. Mais do que um curta-metragem, é um manifesto contra a fome e o desperdício, um lembrete de que a comida é um direito humano fundamental e que a erradicação da fome é uma responsabilidade coletiva.

    Para além da crítica social, o filme também oferece algumas pistas para a construção de um futuro mais justo e sustentável como: 

    • Combate ao desperdício: reduzir o desperdício de alimentos em todas as etapas da cadeia alimentar, desde a produção até o consumo, é fundamental para garantir o acesso universal à comida.
    • Agricultura familiar: fortalecer a agricultura familiar e campesina que produz alimentos frescos e nutritivos com menor impacto ambiental é crucial para a construção de um sistema alimentar mais justo e sustentável.
    • Políticas públicas: implementar políticas públicas que garantam o acesso à terra, crédito e assistência técnica para os pequenos agricultores, além de programas de distribuição de alimentos para as populações mais vulneráveis, são medidas essenciais para combater a fome.
    • Consciência do consumidor: o consumo consciente, que valoriza produtos locais, frescos e produzidos de forma sustentável é fundamental para pressionar as empresas por práticas mais justas e ambientalmente corretas.

    Ilha das Flores é um filme necessário e atemporal, que nos convida a repensar nossa relação com a comida e nosso papel na construção de um mundo mais justo e sustentável.

    Vale ressaltar que o curta-metragem é de fácil acesso online, o que permite que seja utilizado como ferramenta educativa em escolas, universidades e comunidades. Através da exibição e debate do filme, podemos promover a conscientização sobre a problemática da fome e mobilizar ações para a construção de um futuro com mais justiça alimentar.


  • Bebê Rena: uma jornada sombria através da solidão, abuso e superação

    Sou um degustador de filmes e séries, aliás, de quase tudo que o audiovisual produz, dos gêneros que se colocam, só não assisto filmes de terror, acho desinteressante, mas os demais estou sempre consumindo. Com as diversas plataformas de streaming o consumo aumentou, porém, deixo claro que não dispenso ir ao cinema e consumir um filme numa boa telona, na companhia de pipoca quentinha, pois vejo algo de místico no ritual de ir ao cinema. Ah! Nunca antes havia escrito sobre filmes ou séries, e olha que devo ter assistido um número bastante razoável, mas nunca fiz as contas de quantos.

    Destarte, isso mudou quando num belo domingo, desses que estou com a boca escancarada repleta de dentes, deitado em minha cama, e vejo no cardápio do streaming uma série com o nome “Baby Reindeer”, na tradução Bebê Rena. De princípio ri com esse nome, pensei, meditei, falei com minha taça de vinho: não vou assistir, deve ser uma droga com esse nome de m… 

    Mas, de maneira oposta ao que pensei, resolvi assistir, e tamanha foi a surpresa, pois fiquei vidrado na tela, ao ponto de o vinho na taça virar purgante de tão quente, e, sem perceber, sete capítulos tinham se passado e eu estava absorto pela série. Seu enredo atravessou-me, por isso resolvi escrever. Não se preocupem, deixarei aqui apenas minhas impressões e poucos spoilers, então vocês podem ou não assistir a série tirando suas próprias conclusões depois dessa leitura.

    Baby Reindeer, minissérie britânica da Netflix, mergulha em um turbilhão de emoções ao retratar a história real de Richard Gadd, interpretado por ele mesmo, que é um comediante em ascensão que se vê enredado em uma teia de obsessão, abuso e trauma. A série, com apenas sete episódios, tece uma narrativa crua e perturbadora, explorando os efeitos devastadores da solidão, do abuso sexual e do vício em drogas na mente e na alma de um indivíduo.

    Logo no início somos apresentados a Donny, um jovem talentoso e carismático, mas que luta para encontrar seu lugar no mundo. Sua solidão o torna vulnerável à atenção de Martha, uma mulher misteriosa e instável, que rapidamente se torna obcecada por ele. O relacionamento tóxico entre ambos se intensifica, levando Donny a um espiral de sofrimento e desespero. A solidão toma conta de Donny, o isolando cada vez mais do mundo exterior. Ele se torna refém da manipulação de Martha, incapaz de escapar de suas garras. 

    A série explora com maestria a fragilidade da psique humana diante da solidão, demonstrando como ela pode abrir portas para relacionamentos abusivos e comportamentos destrutivos.

    O abuso sexual e o vício em drogas se configuram como mecanismos de fuga para Donny, que busca, em vão, aliviar a dor e o vazio que o consomem. A série retrata com brutal honestidade os efeitos devastadores desses traumas, não apenas no corpo, mas também na mente e no espírito.

    Baby Reindeer não se limita a mostrar o lado sombrio da história, a série também oferece um vislumbre de esperança e redenção. Através da força interior e do apoio de amigos e familiares, Donny encontra forças para enfrentar seus traumas e reconstruir sua vida.

    Após maratonar a minissérie posso dizer que a mesma serve como um alerta poderoso sobre os perigos da solidão, do abuso sexual e do vício em drogas. É um lembrete de que a saúde mental deve ser valorizada e protegida e que a busca por ajuda nunca é vergonhosa.

    Com atuações excepcionais, uma trilha sonora envolvente e uma direção impecável, Baby Reindeer é uma obra de arte perturbadora, mas necessária. É uma série que te prende do início ao fim, te faz refletir e te convida a confrontar os fantasmas que assombram a alma humana.

    Nessas poucas linhas, é impossível capturar a complexidade e a profundidade de Baby Reindeer. Mas espero que esta resenha sirva como um convite para explorar essa obra poderosa e comovente, que te fará questionar os limites da resiliência humana.

    Claudio Wagner é professor, cientista da religião, historiador e poeta, autor do Livro Entre a Sombra da Razão e Razão da Sombra, CJA-2016.




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Claudio Wagner