Quando falamos em saúde, é comum pensar em consultas, exames, medicamentos e hospitais. Mas a saúde começa muito antes de chegarmos a uma unidade de atendimento. Está na possibilidade de praticar atividade física, na qualidade da alimentação, nas condições de moradia, na prevenção de doenças e na oportunidade de receber tratamento quando precisamos.
Por isso, defender a saúde pública é defender muito mais do que um sistema de atendimento. É defender a ideia de que viver com dignidade não deve ser um privilégio reservado a quem pode pagar.
Como fisioterapeuta, vejo como o acesso ao cuidado pode transformar a vida de uma pessoa. A reabilitação devolve autonomia, o exercício físico contribui para prevenir doenças e o acompanhamento adequado pode evitar que problemas inicialmente simples se tornem limitações permanentes. Mas o que acontece com quem precisa desse cuidado e não consegue pagar por ele?
É nesse ponto que o Sistema Único de Saúde (SUS) se torna indispensável.
Criado a partir da Constituição Federal de 1988, o SUS representa uma das maiores conquistas sociais brasileiras. Sua importância vai muito além das consultas médicas: envolve vacinação, vigilância sanitária, transplantes, distribuição de medicamentos, atendimento de urgência, acompanhamento de doenças crônicas e tantas outras ações que sustentam a saúde coletiva.
Isso não significa ignorar suas dificuldades. As filas, a falta de profissionais em determinadas regiões e a demora para exames e procedimentos são problemas reais. Justamente por isso, precisamos discutir como fortalecer o sistema, ampliar sua capacidade de atendimento e garantir que o cuidado chegue a quem mais precisa.
Às vésperas de uma eleição presidencial, considero fundamental olhar para os projetos de governo também sob essa perspectiva. É justamente por isso que escrevo este texto: para conversar especialmente com quem ainda está indeciso, com quem talvez esteja avaliando as candidaturas por outros assuntos, mas ainda não parou para pensar no que cada projeto representa para a saúde da população.
Quando colocamos as propostas lado a lado, as diferenças importam.
De um lado, temos um projeto construído ao longo dos anos em torno da ampliação de políticas públicas, do fortalecimento da estrutura estatal de atendimento e da continuidade de programas como o Mais Médicos, o Farmácia Popular e as iniciativas de expansão da assistência especializada. É uma trajetória que, com seus acertos e limitações, oferece uma base concreta sobre a qual se pode cobrar avanços e melhorias.
De outro, encontramos um programa que apresenta propostas para a saúde, mas cuja abordagem, em pontos importantes, deixa perguntas fundamentais sobre como será garantido o fortalecimento estrutural do SUS. Há promessas de reduzir filas por meio da contratação de serviços privados, atualizar pagamentos a prestadores e ampliar ferramentas tecnológicas. Essas medidas podem contribuir para resolver problemas específicos, mas não respondem, sozinhas, ao desafio de construir uma rede pública cada vez mais forte, presente e acessível.
A diferença não é irrelevante. Reduzir filas é necessário, mas fortalecer o sistema que produz o atendimento também é. Contratar serviços disponíveis na rede privada pode ajudar em determinadas situações, mas precisamos saber como isso será financiado, fiscalizado e articulado com a rede pública. Resolver uma demanda imediata não é a mesma coisa que garantir a continuidade do cuidado.
E é justamente essa continuidade que faz diferença na vida das pessoas.
Pensemos em alguém que precisa de fisioterapia após uma cirurgia, de acompanhamento para uma doença crônica ou de reabilitação para recuperar movimentos e independência. Não basta conseguir uma consulta isolada. É preciso ter acesso ao tratamento, conseguir dar continuidade a ele e receber assistência de acordo com suas necessidades. Para muitas famílias, depender exclusivamente da rede privada significa simplesmente ficar sem atendimento.
Também precisamos considerar o financiamento. Todo plano de governo deve ser avaliado não apenas pelo que promete, mas pela clareza com que explica como pretende cumprir suas promessas. De onde virão os recursos? Quais serviços serão priorizados? Como serão valorizados os profissionais? Que garantias existirão para que a população mais vulnerável não fique para trás?
Essas perguntas são indispensáveis quando se trata de um direito constitucional.
Não precisamos idealizar o SUS para reconhecer seu valor. Podemos criticar suas falhas e, ao mesmo tempo, compreender que sua existência é fundamental para milhões de brasileiros. O desafio é torná-lo mais eficiente, acessível e capaz de responder às necessidades da população, sem perder o princípio que o sustenta: a saúde como direito universal.
É por isso que, quando avalio as duas propostas sob a perspectiva da saúde pública, considero a escolha bastante clara. Vejo maior consistência em um projeto que tem como horizonte o fortalecimento continuado do SUS e a ampliação das políticas públicas do que em uma abordagem que deposita parte importante de suas expectativas em soluções pontuais e na utilização da estrutura privada.
Essa é uma avaliação política, sim. E não vejo motivo para esconder isso. Como profissional da saúde, tenho o compromisso de defender condições dignas de vida, acesso ao cuidado e políticas que alcancem a população independentemente de sua renda. O que não seria responsável é fingir que projetos políticos diferentes não produzem consequências diferentes.
Meu objetivo ao escrever não é desqualificar quem pensa de outra maneira, muito menos pressupor que todos os eleitores tenham as mesmas prioridades. É convidar especialmente quem ainda está indeciso a incluir a saúde nessa conta. Porque ela nem sempre recebe a atenção que merece durante uma campanha, mas estará presente na vida de todos nós depois que as urnas forem fechadas.
Que a nossa decisão considere não apenas discursos, promessas ou preferências partidárias, mas também a história das políticas públicas, a consistência dos projetos e o compromisso com os direitos sociais.
Quando colocamos na balança o futuro do SUS, a prevenção, a reabilitação e o acesso universal à saúde, precisamos ter coragem de reconhecer as diferenças entre os caminhos apresentados.
Votar consciente também é escolher qual futuro queremos para a saúde brasileira. E, quando o direito à saúde está em jogo, essa escolha não é pequena: ela pode fazer diferença entre ter acesso ao cuidado e ficar desassistido.
Referências para consulta
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Propostas de governo dos candidatos à Presidência da República — Eleições 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/
- UOL Notícias. SUS e hospitais: o que preveem os planos de Lula e Flávio para a saúde. Publicado em 21 de outubro de 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/10/21/sus-e-hospitais-o-que-preveem-os-planos-de-lula-e-flavio-para-a-saude.ghtm


