Opinião

A teoria na prática é complemento.

Olá, queridos! Como vão?

Gosto de pensar que tudo isso que escrevo aqui, de alguma forma, ajuda vocês a se aproximar cada vez mais desse universo incrível que é o do autoconhecimento. Ou, até mesmo, se apaixonar por esse caminho. Eu sou uma pessoa esperançosa e otimista, pode acreditar que me dou o direito de pensar assim, sim!

Eu falo sobre formas de alcançar e praticar o autoconhecimento, mantendo a premissa que já estabeleci, de que não sou especialista no assunto, ao menos não no aspecto acadêmico da coisa. Trago reflexões sobre o tema, técnicas que já utilizei, coisas que deram certo ou não.

Vez por outra faço do texto quase que um testemunho, contando o que de fato acontece comigo, como lido, aplico e pratico tudo que falo aqui para vocês. Acredito que quando nos mostramos, sem filtros, contribuímos para que as pessoas se identifiquem conosco, de verdade. E essa identificação pode ajudar muito mais do que um manual de instruções.

Não que manuais sejam inúteis e exemplos sejam o pulo do gato. Gosto de vê-los como complementares, promovendo um resultado muito mais eficaz quando juntos. Assim como fazer terapia (quando é possível, claro!) e estudar/praticar autoconhecimento. Um só potencializa o outro.

Enfim, hoje é um desses dias. Hoje, eu quero trazer um exemplo bem detalhado, transparente e sincero de como praticar o autoconhecimento pode facilitar nosso dia a dia de formas que nem imaginávamos que seria possível. Mesmo através das coisas mais simples.

Recentemente eu experimentei uma montanha russa de emoções, uma bagunça interna que se estendeu por uns três dias. Não foi uma montanha russa das mais radicais e que fazem a gente ter medo só de olhar, mas foi o suficiente para abalar o emocional, literalmente.

No primeiro desses dias eu estava me sentindo ótima. Saí para caminhar e fui até um local aqui na cidade com uma vista linda. Porque a gente até faz a parte do esforço, mas gosta mesmo é da recompensa, não é?

Pois é, estava eu lá caminhando e me senti invadida por um sentimento maravilhoso, proporcionado por aquela vista incrível, como só essa cidade consegue oferecer. (Prefeitura de Natal: me patrocina!)

Fiquei um tempo parada, olhando para o mar, as nuvens, o céu, as ondas batendo nas pedras. Só absorvendo aquela imagem e me deixando maravilhar com aquilo. Era como se eu me sentisse mais leve, a meio metro do chão. Flutuando de tanta alegria e gratidão por poder contemplar aquela beleza sem fim.

(Nossa ela é melosa assim?)

Sim, sou. Internamente milhões de vezes mais que externamente. Agradecer é meu primeiro e último pensamento de todos os dias. Para mim, gratidão é muito mais um sentimento sem palavras do que a verbalização dele. E aquilo que agradecemos e a quem agradecemos é algo tão particular que funciona melhor no silêncio.

Esse é meu normal. Sempre pensando e agindo conectada com o “obrigada” meu de cada dia. Já deixo claro que também reclamo, tá! Também me incomodo com coisas, me aborreço. Não sou nenhuma iludida da vida que acha tudo lindo o tempo todo, não.

Eu só passo mais tempo agradecendo que reclamando, e me policio para sempre procurar algo para agradecer quando me percebo uma chata reclamona do dia. Eu tenho um propósito comigo mesma de reclamar cada vez menos e, como toda mudança na vida, para alcançar isso é preciso praticar. Por isso me ponho a fazer sempre que consigo.

Terminada a contemplação daquela vista, terminada a caminhada, voltei para casa me sentindo maravilhosamente bem. Tomei um banho, comi algo e fui deitar para ficar assistindo série até dar a hora de dormir. Uma forma excelente de terminar a semana e me preparar para o início da próxima.

Só que no dia seguinte eu acordei sem nem um resquício do sentimento maravilhoso que adormeceu comigo. Mal consegui acordar no horário de ir para a academia. Na verdade, não tive forças para levantar e nem fui me exercitar. Levantei apenas a tempo de me arrumar para o trabalho.

Comecei a perceber que toda aquela alegria e leveza do dia anterior tinham dado lugar a uma melancolia estranha, quase uma apatia. Estava me sentindo sem forças, meio que sem vida.

Enquanto fazia meu café da manhã percebi que estava de cara amarrada, nada estava bom. Fazia tudo no automático, com a vontade de voltar para debaixo do lençol e ficar lá por uma semana inteira só aumentando. Bateu uma coisa ruim no peito, fiquei incomodada por estar daquele jeito, num contraste tão grande com o humor do dia anterior.

Oras, eu estava fazendo comida — eu adoro comer —, e logo café da manhã — minha refeição favorita —, e tinha tudo que eu precisava ao meu alcance. Lembrei logo daquele clássico, e verdadeiro, argumento de pai e mãe para fazer a gente comer quando é criança de que tem muita gente pelo mundo passando todo tipo de necessidade e que adoraria ter acesso ao que estava bem ali na minha frente.

Na mesma hora chamei minha atenção: “Que coisa feia, Fernanda! Deixe de ser ingrata e fique feliz pelo que você tem!”. — Sim, eu brigo comigo mesma, já tinha dito isso aqui antes —. Se tem algo que eu detesto com todas as forças é me perceber ingrata. Eu não sou assim. Eu não sou assim. Quando falei isso a mim mesma percebi o quanto isso era verdade. Devia estar lendo errado a situação.

Olhei com atenção para aquele sentimento e percebi que não, não era ingratidão. Mas eu também não tinha nenhum outro motivo para estar no modo “reclamona”, nada estava errado ao meu redor, não tinha acontecido nada desde o dia anterior, que tinha sido leve e tranquilo, que justificasse uma queda de ânimo tão brusca.

E foi aí que eu me toquei. Queda. Não era reação a qualquer acontecimento ruim, nem insatisfação com algo ao redor, nem muito menos ingratidão. Era simplesmente a boa e velha queda hormonal. Aquela época “abençoada” de todo mês em que estrogênio e progesterona praticam queda livre no organismo, levando a produção de serotonina com eles para as profundezas do oceano.

(Tá, mas, nessa idade ainda não se acostumou com TPM? Como que ela ainda se confunde tão fácil?)

Não é tão simples assim. Às vezes a gente é pega de surpresa e até lembrar de conferir o calendário a confusão dos sentimentos permanece sem justificativa. Eu já me desesperei por sentir essa tristeza e não entender de onde vinha.

Mesmo lidando com meu ciclo há anos e anos. Não foi logo de cara que percebi que essa tristeza tinha dia certo e motivo químico-biológico. Apesar de ter percebido desde cedo que sou do tipo que fica tristinha, e não irritada, no ponto crítico da TPM.

Acontece que às vezes essa queda hormonal bate tão forte, como foi o caso desses dias, que a gente pode acabar nem considerando que se trate de algo tão familiar. Quando bate nessa intensidade, a primeira coisa que o cérebro faz, ao menos o meu, é buscar uma justificativa à altura.

Para vocês verem como se conhecer é um caminho trabalhoso, por vezes ardiloso. Já demorei muito mais tempo para identificar a origem desse desânimo de proporções faraônicas e relacioná-lo com o período do mês. Dessa vez consegui ligar os pontos em bem menos tempo. Acreditem ou não, isso é um grande avanço.

Sem contar que é uma situação feita para se retroalimentar, afinal, quem que vai conseguir manter o raciocínio ágil, prático e direto quando se encontra com as forças física, emocional, psicológica, e etc, reduzidas por questões químico-biológicas?

Mas, ainda que não de imediato, é um alívio perceber que esse marasmo energético é uma resposta hormonal, que não há nada de errado, que isso não faz de mim uma pessoa menos capaz — só mais lenta. Mesmo que eu continue sentindo isso o dia todo. E dura o dia todo mesmo.

Entender o motivo do que eu estava sentindo não fez aquilo passar, mas me ajudou a direcionar e facilitar a forma como eu ia lidar com o dia que estava apenas começando. Além de garantir que eu fizesse tudo que precisava ser feito, mas respeitando meus limites, me acolhendo e cuidando de mim.

Estabeleci como ia agir. Não tomaria decisões importantes, nem pensaria em questões pendentes que sei que me trariam angústia. Nem muito menos faria qualquer coisa que me levasse além do pouco que eu estava conseguindo dar conta. Estava igualzinha ao meme: “Dei meu máximo e era o mínimo”.

Segui meu dia focando o máximo que podia no trabalho, querendo manter a mente sempre ocupada. Só me permiti concentrar em uma tarefa por vez, fiz tudo no ritmo que consegui, falei somente com quem foi preciso falar, mesmo sem energia para isso. Tive paciência comigo mesma e, no fim do dia, cumpri com todas as minhas obrigações.

Encerrado expediente, meu destino certo era minha cama. Depois de comer e tomar um banho quente, fiquei lá encolhidinha — ou o máximo encolhida que uma pessoa do meu tamanho consegue ficar —, e coloquei uma série para assistir, até a hora que me deu vontade. Sem pensar em nada, apenas quietinha. E sem falar com ninguém.

Antes de dormir agradeci pelo dia, mesmo ainda me sentindo péssima e com vontade de permanecer encolhida debaixo do lençol por uma semana.

No dia seguinte, acordei agradecendo pelo novo dia e toda trabalhada na disposição. Levantei numa boa e fui para a academia, com a mesma energia caótica de quase todo dia, cumprimentando a todos cheia de animação, às 5h da manhã.

Vejam que esse acontecimento não foi algo que mudou minha vida, nem foi a maior lição que já aprendi. Mas o caminho é construído com passos de todos os tamanhos. Para mim, o importante no meu aprendizado é ver que aproveitei todas as oportunidades que consegui para me conhecer um pouquinho mais.

Depois que tudo passou, parei para pensar com a objetividade de quem já está fora da situação. Analisei o seguinte: no primeiro dia estava na crista da onda energética da animação. No segundo, essa animação foi tirar férias nas Fossas Marianas. No terceiro, tudo normal de novo.

Imediatamente fiz um paralelo com aquela história, tão enraizada na nossa cultura, de alguém que ressuscitou ao 3º dia. Pensei se essa história não quer nos mostrar mais do que aquilo que sempre interpretamos. Se não pode ser vista, também, como uma forma de nos ensinar a não julgar nossos acontecimentos pelo primeiro impacto e ter paciência de esperar para ver o que realmente aquilo significa, esperar para ver antes de se deixar desesperar.

O que eu sei, mesmo, é que aprender a me conhecer e colocar isso em prática já me salvou muito mais vezes do que eu consigo contar ou lembrar. Aprender a me conhecer e colocar isso em prática me torna cada vez mais dona de mim mesma e me ajuda a enxergar o mundo com muito mais clareza, menos sofrimento e mais esperança.

É um ciclo virtuoso no qual quanto mais eu aprendo, melhor me sinto. E quanto melhor me sinto, mais eu quero aprender.

Até a próxima!