
Olá, queridos! Como vão?
Vocês costumam conversar sobre autoconhecimento com as pessoas que os cercam? Têm o hábito de trocar experiências e conhecimentos sobre o tema? Entender como o outro enxerga o mundo, e a si mesmo, é uma parcela significativa do que compõe o caminho do autoconhecimento.
Tanto quanto estudar sobre o tema, praticá-lo e fazer terapia (quando possível), por exemplo.
Faz pouco tempo, debatia com um amigo sobre até que ponto devemos ter autoestima. Ele dizia que autoestima muito elevada está levando as pessoas a ter atitudes arrogantes e egoístas. Eu rebati dizendo que isso não é autoestima, isso é ego. Puramente.
Que a autoestima é a estima (cê jura?) que se tem por si mesmo. É o quanto nos apreciamos. E que o ego é o quanto depreciamos o outro. Duas coisas diametralmente distintas.
Então, ele argumentou que é complicado saber quando estamos agindo com base na autoestima ou inflados pelo ego. Respondi, na lata, com uma única palavrinha: autoconhecimento. Não há outra forma de saber diferenciar nossas atitudes senão aprendendo a nos conhecer.
E foi aí que ele disse algo que, só agora, depois de eu ter passado por outra situação bem diferente dessa conversa, um espacinho aqui na minha cabeça começou a se inquietar. Ele disse: “Eu tenho medo de me conhecer. Não sei o que posso encontrar”.
Na hora eu disse que respeitava a opinião dele (não fiz menos que minha obrigação de ser humano que vive em sociedade), e compartilhei a minha, dizendo como me apaixonei irremediavelmente pela prática de me conhecer. Até aí, tudo ok.
Acontece que, recentemente, recebi uma notícia que me deixou tão feliz, mas tão feliz, que eu nem saberia descrever o quanto. (Sim, vou deixá-los curiosos. Essa notícia é assunto para outro texto). Oque eu sei é que nunca senti uma felicidade tão grande na vida. Nada nunca foi tão bom sentir.
Eu ria, chorava, gritava (internamente, porque era muito cedo e a vizinhança ia reclamar), ria de novo. Agradecia o tempo todo! Meu corpo inteiro ficou dormente e eu não sabia o que fazer, para onde andar, o que pensar. Estou descrevendo tudo isso para tentar explicar como foi intensa, e nova, essa sensação.
Depois, quando a euforia passou, eu percebi o quão novo era sentir aquilo tudo. Fui me dando conta de que eu estava acostumada a sentir dor, sempre fui. Já senti muita dor na vida, tanto física quanto emocional, e acabei desenvolvendo alta tolerância para isso. Uma das frases que repito muito é “dor dá, e passa”, de tão acostumada a lidar com ela que estou.
E do meio dessa euforia sem tamanho, surgiu minha compreensão de que, por tantos anos, talvez eu tivesse evitado conhecer tamanha alegria por não saber como meu corpo ia reagir. Não me entendam mal, foi maravilhoso sentir aquilo tudo, mas também foi estranho. Era algo que eu desconhecia totalmente.
Foi como andar descalça, no escuro, em terreno desconhecido. Por mais macio e estável que possa ser esse terreno, no começo vamos pisar sem confiança, com receio, até que se estabeleça a familiaridade.
E foi isso que eu percebi que não tinha, familiaridade com uma felicidade desse tamanho. E um possível medo de ser feliz por não saber como lidar com isso.
Encarei de frente esse lado meu que estava com medo de ser feliz e, sinceramente, não gostei dele. Mas gostei muito de descobrir que ele existe, porque agora posso fazer algo a respeito. (Minha terapeuta que lute!).
Fiquei olhando para esse lado medroso, para essa sensação desgostosa em saber que esse lado existe e lembrei da conversa com meu amigo. Percebi que, há muito tempo, eu perdi o medo de me conhecer. Percebi o quanto a sensação de entender isso também é muito boa!
Todo ser humano tem seus lados ruins, feios, horríveis até. Eu, óbvio, não sou diferente. Já descobri coisas sobre mim mesma quase me quebraram, quase! Eu fiquei péssima ao encarar algumas sombras minhas, foram momentos em que senti muita dor, mas, como eu costumo dizer… dor dá, e passa.
Todas as dores e confusões e conflitos, que tive de encarar ao descobrir algo meu que me desagradou (para dizer o mínimo), passaram. Todas. E eu sempre saí disso mais forte que antes. E ainda mais sabida sobre mim mesma.
Eu entendo que pode ser assustador mesmo encarar que podemos ter defeitos que abominamos no outro (aliás, esse é um bom indicativo, fica a dica), que podemos carregar em nós algumas sombras que sequer imaginávamos, que podemos ser capazes de coisas que sequer temos coragem de dizer em voz alta, mas quando levamos a sério mesmo essa tarefa de nos conhecer e não desistimos, chega uma hora que esse medo também passa.
A gente desenvolve uma habilidade de tartaruga. (Não, a gente não vira uma Tartaruga Ninja). Sabem como a tartaruga tem o casco bem duro e a carne dela é bem molinha? Eu sempre gostei dessa ideia, até tatuei uma tartaruga nas costas para carregar comigo esse ideal, de ter uma proteção dura contra os males do mundo sem, para isso, endurecer o coração.
Só não imaginava que conseguiria alcançar isso numa aplicação em mim mesma. Quando percebi que perdi o medo de me conhecer, entendi que consegui criar uma proteção em mim mesma contra as partes de mim que podem me machucar e que essa proteção não me afasta da prática de me conhecer. Muito pelo contrário, ela me permite me aproximar com ternura e acolhimento do meu lado sombra e, com paciência, aprender a lidar com ele.
A gente pode estudar sobre autoconhecimento, até mesmo em grupos, a gente pode fazer terapia, a gente pode trocar ideias sobre o tema com as pessoas que nos cercam, mas a verdade é que esse é um caminho bastante solitário. Estamos só nós e nosso interior ali nos encarando, descobrindo o que tanto tem ali dentro.
Mas, eu posso garantir que esse medo passa, na justa medida em que praticamos. Quanto mais encaramos nossas sombras, quanto mais nos decepcionamos por saber que elas existem, mais vamos conhecendo esse universo único que somos e nos apaixonando por ele em toda sua complexidade.
O medo passa. A curiosidade em saber mais sobre si aumenta. E começamos a querer saber mais e mais sobre nós mesmos. Ficamos em estado de atenção constante às nossas reações, pensamentos, sentimentos. Pois, nunca se sabe quando ou como se vai aprender mais sobre si.
E, uma coisa eu posso dizer, quando se começa a se conhecer, quando se permite esse fluxo ir solto, é como abrir as comportas de uma represa: é água que não para mais.
Só que as comportas dessa represa, nem adianta querer fechar de novo, porque aí é que ela sangra, transborda sem freio. E é um espetáculo belíssimo de se ver, e de viver.
Transbordem, queridos!
Até a próxima!

