Opinião

Tudo que vai… e que veio.

Olá, queridos! Como vão?

Todo ano, nas vésperas do meu aniversário, me pego em meio a reflexões sobre tudo que já passou, sobre mais esse ciclo prestes a se encerrar. E esse ano não seria diferente. Como sempre, o sentimento de gratidão é o maior deles. Tudo que foi, ou deixou de ser, teve um propósito e eu sou muito grata por isso. Tanto às alegrias quanto às lições.

Porém, não somente o que de vida ocorreu em mim, mas também o que de mim coloquei nessa vida. Falo sempre sobre a presença do autoconhecimento no meu dia a dia e sou muito sincera quando digo que me conhecer é algo que pratico a cada respirar.

Esses dias estava pensando, mais uma vez, sobre quem sou e o que me trouxe até aqui. Lembrei de algo que sempre soube ser parte importantíssima da formação do meu eu, da minha pessoa (mais para frente eu explico esse destaque na palavra pessoa).

Lembrei que, antes de mim, muitos vieram e construíram suas histórias para que eu pudesse ser. Estou me referindo a 2 pais, 4 avós, 8 bisavós, 16 trisavós, 32 tataravós, 64 pentavós… 126 pessoas para poder formar uma. Eu. Isso contando somente até a 6ª geração anterior, não ia caber tudo. Mas, vocês já entenderam a ideia.

Toda essa gente contribuiu não apenas com material genético para geração de uma nova vida. Eles abriram caminhos, travaram batalhas, enfrentaram medos, perigos, dificuldades. Tudo para garantir a sobrevivência dos seus, daqueles que geraram. Tantas histórias de vida!

Eu acho uma pena que, quanto mais distantes, menos sabemos sobre eles. É o curso natural da vida, claro! Mas, ainda assim, gostaria de saber muito mais do que o pouco que sei.

Por exemplo, eu sei que um dos meus tetravôs paternos veio da Itália para o Brasil ainda muito moço, já casado, desbravou terras no sul do país e criou seus filhos em meio a plantações e muitas dificuldades.

Já um trisavô materno, morava no interior da Bahia, era um exímio comunicador e contador de histórias, do tipo que subia em caixotes e tudo. Deixava os netos encantados com sua fala. Era comerciante.

Mesmo que proporcionalmente pouco, diante da quantidade de pessoas que nunca conheci, eu já ouvi várias histórias sobre meus antepassados, especialmente porque eu gosto e busco isso.

Toda oportunidade que tenho, sento e ouço sobre os de antigamente de qualquer parente que queira me contar. Acho fascinante ouvir sobre pessoas que não conheci, sobre um tempo que não vivi, especialmente sabendo que tenho uma conexão com essas pessoas.

E é para essa parte que volto quando digo que nos conhecer também é conhecer os que vieram antes de nós. Conexão. De alguma forma, carregamos em nós a soma de tudo que eles foram. Suas histórias, suas lutas, dificuldades, medos, desejos, prioridades, visões de vida. Há linhas de estudos que afirmam que nosso DNA traz muito mais do que genética, que o que vivemos fica marcado nesse código que passamos para os que vêm depois de nós.

Fico imaginando quanto conhecimento não se acumulou ao longo de sabe-se lá quanto tempo e chegou até mim. E eu precisei somente existir para receber tudo isso de bandeja, de presente. E que presente!

A gente percebe que sabe coisas e que nunca se deu conta como, onde, quando ou com quem aprendeu aquilo. A gente tem umas intuições que não sabe explicar, uns não-sei-só-sei-que-foi-assim que nos ajuda a resolver um monte de coisas na vida. Muito disso vem deles, dos nossos que vieram antes. Eu, particularmente, gosto de acreditar nisso.

É claro que a gente também aprende no dia a dia, com a convivência. Mas, será que já paramos para pensar o suficiente para tentar entender de quantas gerações passadas vêm os hábitos e ensinamentos que aprendemos com nossos pais?

Como aquela história da mulher que sempre cortava a cabeça do peixe para colocar na assadeira porque assim aprendeu com a mãe, que por sua vez aprendeu com a mãe dela, que fazia isso porque anos atrás, quando casou, não tinha condições de ter uma assadeira grande o suficiente para o peixe inteiro.

Não tem mal algum em continuar cortando a cabeça do peixe, mas é muito importante que saibamos o motivo de cortar. E essa frase não é sobre peixe.

Ensinamentos que há 100 anos faziam muto sentido e que hoje não fazem mais. Ensinamentos que há 500 anos eram a mais pura verdade e que hoje continuam sendo. Tudo isso vem daqueles que nos antecederam e são conhecimentos que, além de ser imperioso valorizá-los, nos ajudam a entender mais sobre nós mesmos.

Sempre que paro para ouvir as histórias dos meus antepassados, penso em quantas outras histórias e aprendizados riquíssimos eu não recebi porque alguma parte se perdeu, porque alguém esqueceu, e simplesmente nunca vou saber.

Penso nas minhas avós, meus avôs, que são a conexão mais próxima que tenho com meus antepassados. O que sei, e não sei, de cada um? O que suas conquistas e medos me ensinaram?

Outro detalhe que me pego pensando, minha família paterna tem um hábito maravilhoso de registrar e valorizar a história dos nossos ancestrais. Já tive acesso a muitos registros, fotos, documentos. E isso tudo é muito rico. Mas, algo que sinto falta, são as histórias das mulheres dessa família. Não quero aqui criar nenhum debate, apenas é fato que, quanto mais voltamos no tempo, mais vemos histórias centradas nos homens.

E eu fico imaginando que mulheres incríveis que foram as minhas ancestrais, somente pelo pouquinho que ouvi sobre elas. Trazendo mais para perto, para minhas avós, eu tenho uma admiração enorme por elas e vejo nelas algo muito similar e que imprimiu em mim uma das minhas características que mais gosto: a resiliência.

Não porque me falaram sobre isso. Não porque me disseram que eu deveria ser assim. Mas porque me mostraram com seus silêncios, com seus ‘nunca desistir’, com seus ‘um dia de cada vez’, o quanto a resiliência é importante. Eu peguei isso para mim como quem se agarra a uma tábua de salvação: sem largar jamais!

Desde quando eu era bem nova eu já percebia que muitas novas gerações passaram a ignorar os conhecimentos e as falas dos mais antigos, achando que o moderno é que supera tudo. Acho uma lástima ver o quanto alguns teimam em não aproveitar isso.

Esses dias tive uma longa conversa com um parente que não via há anos. Ele é um estudioso e pesquisador por natureza, e profissão. Falávamos sobre o ser humano e ele mencionou um conceito da filosofia que me remeteu a esse sentimento, à importância da ancestralidade.

Ele falava sobre o indivíduo versus pessoa (falei que explicaria). Que o indivíduo é o que nos torna únicos, mas que a pessoa é o que nos torna gente (definição minha). Que eu posso ser a Fernanda, esse indivíduo único (como todos somos), com qualidades e defeitos em uma mistura que compõe só a mim. Mas que parte disso é a Fernanda filha, a irmã, a neta, a sobrinha, a prima, a amiga, a colega de trabalho, a estranha que passa na rua.

Que eu não consigo ser uma pessoa, sem ser parte da pessoa de alguém. E isso é algo que me traz um sentimento delicioso de pertencer a um todo com razão de ser. Eu amo pessoas, amo fazer parte de um universo gigantesco de pessoas. E conhecer quem veio antes de mim me faz sentir mais pessoa ainda.

Eu sei que o passado não é norte, é referência. E levo minha vida assim, podem ter certeza. Mas a importância de conhecer e valorizar nossos antepassados é que não se caminha sem referência. Não se a gente quiser saber aonde vai chegar.

Para ilustrar essa conversa de hoje, queria deixar com vocês essa imagem que coloquei no topo, feita por IA e inspirada em um trabalho de artes da escolinha, em que eu aos 3 anos começava a aprender sobre as “minhas ferramentas” e que tudo que eu preciso sempre esteve em mim.

É certo que as ferramentas são minhas, representadas simbolicamente pela minha mãozinha gordinha-iti-malia-que-coisinha-mais-fofinha. Mas eu não coloquei a tinta, eu não escrevi no tecido, eu não marquei a mão tão perfeitinha sozinha. Precisei de quem, antes de mim, soubesse como fazer para me ensinar.

Todos nós já nascemos para ser quem somos porque os que nos deram o dom da vida nos colocaram nesse mundo dando tudo de si para que nós pudéssemos nos descobrir, honrar quem eles foram e transmitir um pouco deles, e de nós, para aqueles que traremos a esse mundo quando for a nossa vez de transmitir nossa história a alguém.

E vocês, o que receberam dos seus que hoje faz parte das suas pessoas? O que estão se preparando para transmitir, ou já transmitiram, para as pessoas depois de vocês? Que pessoas estamos escolhendo ser, e deixar, para esse mundo que acolhe tantas pessoas?

Até a próxima!