Debate na Band

Lula e Flávio provam que ambos serão tragédias para o Brasil

Ataques pessoais e promessas insuficientes para convencer expõem um segundo turno que oferece ao país razões de sobra para preocupação.

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Lula fala em primeiro plano e Flávio Bolsonaro aparece ao fundo no palco do debate da Band.
Lula e Flávio Bolsonaro durante o debate presidencial da Band. Crédito: Reprodução/Band Jornalismo

O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band, neste domingo (18), reforça minha convicção de que o Brasil terá motivos para lamentar a vitória de qualquer um deles. Nos confrontos exibidos até aqui, vejo uma disputa empobrecida pela agressividade, pelo oportunismo e pela tentativa de transformar a rejeição ao adversário em licença para governar.

O eleitor tem o direito de exigir mais. Está em jogo quem conduzirá o país, administrará recursos públicos e tomará decisões que chegam à mesa, ao trabalho e à segurança das famílias. O baixo nível de várias passagens do debate desrespeita a importância dessa escolha.

Flávio resolveu constranger o eleitor de Lula associando sua escolha à de criminosos. Em determinado momento, afirmou: “Você vai votar igual ao ladrão do seu celular”. É um recurso grosseiro: tenta contaminar moralmente milhões de cidadãos pela preferência eleitoral atribuída a quem comete crimes. Essa associação serve à hostilidade entre brasileiros e acrescenta muito pouco à discussão sobre como protegê-los. Veja o trecho.

Lula também escolheu o deboche. Diante da provocação sobre votos nas prisões, respondeu: “Até teu pai”, referindo-se a Jair Bolsonaro. Mais adiante, dirigiu a Flávio a frase: “As pessoas mentem pelos olhos”. A primeira intervenção alimenta a disputa familiar; a segunda troca a demonstração de uma mentira pela pretensão de identificá-la na expressão do adversário. Considero ambas muito aquém da responsabilidade de um presidente. Veja a troca e a fala sobre os olhos.

Outra passagem expôs a mesma degradação. Enquanto Lula cobrava explicações sobre o financiamento do filme de Jair Bolsonaro, Flávio disse que já havia explicado o assunto, afirmou que o dinheiro foi para a produção e ofereceu ao adversário uma entrada de cortesia, exaltando o pai. A cobrança sobre dinheiro merece resposta objetiva. Transformá-la em provocação sobre popularidade é uma maneira de empobrecer um assunto sério. Veja a passagem.

Acusações sobre patrimônio, familiares e relações políticas exigem fatos verificáveis e respostas claras. Minha crítica é ao uso dessas questões como munição de palco. Repetir uma suspeita, responder com outra e recorrer à ironia deixa o eleitor cercado de insinuações. O conteúdo precisa ser apurado; o espetáculo, por si, não demonstra culpa nem esclarece inocência.

Houve propostas e instrumentos mencionados. Flávio falou em enquadrar facções e milícias como organizações narcoterroristas e endurecer a legislação. Lula defendeu a PEC da Segurança e maior atuação federal, ao criticar os resultados dos estados. Essas ideias merecem exame rigoroso. Para me convencer, seus defensores precisam explicar execução, financiamento, responsabilidades e resultados que possam ser cobrados. Propostas de Flávio e posição de Lula na cobertura da Band.

É nesse ponto que vejo o vazio das promessas e o oportunismo da apresentação. Anunciar mais dureza ou mais poder para a União rende uma frase forte. O cidadão precisa saber como isso produzirá investigação eficaz, fronteiras fiscalizadas e menos domínio criminoso nos bairros. Minha régua para avaliar os candidatos é essa. As intervenções acompanhadas até aqui ficaram longe de me satisfazer.

Lula, como presidente, deve prestar contas do que entregou e explicar o que ainda falta fazer. Flávio, como postulante ao cargo, precisa demonstrar capacidade própria e sustentar suas soluções para além da exaltação do pai. Ambos devem respostas ao eleitor, inclusive àquele que não integra suas torcidas.

A conclusão política que tiro desse confronto é dura: vejo em ambos a perspectiva de uma tragédia para o Brasil. Nenhuma antipatia pelo adversário me obriga a aceitar ataques vazios, promessas de efeito ou uma conversa tão pequena sobre um país tão grande. Quem pede a Presidência tem a obrigação de estar à altura dela.