Tony Silva: os meandros de uma das grandes atrizes de Mossoró



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Uma história linda de uma guerreira com sangue de mãe África nas veias.

Tony Silva que comentário maravilhoso… Muito bonita a sua trajetória. Estes relatos você precisa coloca-los no seu currículo.


A encontrei na tarde da última segunda-feira, 27, no centro de Mossoró, no Memorial da Resistência.

Num bate-papo descontraído, longe das formalidades duma entrevista cartorial, ficamos sentados no banco do Memorial por pouco mais de 1 hora. São 40 anos de carreira, numa trajetória marcada por vários sentimentos e embalada por diversas circunstâncias.

Uma das maiores atrizes de Mossoró, do Rio Grande do Norte e do Nordeste, Antônia Lúcia da Silva, simplesmente Tony Silva, é uma entidade, só estando perto dela para sentir sua força e a energia que emana de sua presença.

Com 40 anos de carreira, Silva fala do início de sua trajetória artística, “eu comecei em 1980, aqui em Mossoró, eu era estudante de técnico agrícola na Escola Professor Eliseu Viana, e o curso tinha aulas na ESAM (hoje UFERSA), e lá eu conheci Aécio Cândido e Crispiniano Neto, que eram nossos professores na época.”

Aécio, ex vice-reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), tinha um grupo de teatro, o Terra, e foi a companhia em que Tony fez seu 1º espetáculo. A artista crava com precisão sua data de estreia no palco mossoroense, “03 de novembro de 1981.”

“Circo Alegria do Povo” é o título da peça que fez a Tony de seus 20 e poucos anos estrear no teatro.

Silva passou quase uma década no Terra, tendo posteriormente integrado a companhia Escarcéu, ainda na década de 1980. No início dos anos 90, a convite de Gustavo Rosado, figura articuladora da cena cultural do município à época, a artista funda o grupo de teatro Nocaute à Primeira Vista.

O Nocaute tinha entre um de seus objetivos se firmar no contexto teatral de Mossoró, haja vista que muitas companhias de teatro se formavam e logo depois se desmanchavam.

O Nocaute teve uma atuação ativa durante toda a década de 90, com sua saída da companhia, a artista fundou, ao lado de Damásio Costa, em 1998, A Máscara de Teatro.

“Na Máscara montamos a ‘Viagem de um Barquinho’, depois viemos com ‘Medeia’. Em 2005, ano de ‘Medeia’, saíamos dos ensaios do Auto da Liberdade, íamos para um galpão ensaiar ‘Medeia’, terminávamos os ensaios de 03 horas da manhã, tomávamos um banho, cada um ia para suas casas, dormia 2, 3 horas e quando acordava já ia para os seus trabalhos.”

Figura presente no Oratório de Santa Luzia, Tony desde o início integrou o espetáculo que conta a história da padroeira dos católicos mossoroenses, no auto encenado nos festejos da Santa, em dezembro. A personagem que encenou durante anos, a Cega, que conta a história na peça, ficou marcada no imaginário teatral mossoroense.

Silva revela que a Cega foi inspirada numa mulher real. Dona Nicácia, atuante na paróquia de Santa Luzia, mesmo depois de perder a visão, continuou se dedicando às atividades religiosas. Tony fez um estudo de pesquisa “barra”, em suas próprias palavras, para construir a personagem inspirada em Dona Nicácia.

A história da artista no Chuva de Bala no País de Mossoró, se inicia com Antônio Abujamra, o 1º diretor do espetáculo. São 16 anos atuando no auto que ocorre em junho, na programação do Mossoró Cidade Junina.

Mulher, negra e artista, Tony é uma negra que conseguiu importante espaço na arte cênica, “você não sabe a barra que a gente passa”. A “nêga Tony”, expressão ainda usada para se referir a artista, mostra o quanto o corpo da mulher negra vem antes do talento da atriz Tony Silva.

A artista diz que Gustavo Rosado foi importante colaborador para sua inserção no cenário cênico, “antes de ser atriz eu sou mulher e negra, e tenho que matar 10 leões por dia para ser reconhecida. Eu tenho a minha estrada, o meu objetivo é se reconhecer na pele de cada negra que está na cidade.”

A fama de abusada recai sobre uma negra, que é cobrada por sua antipatia, enquanto a acidez de atrizes brancas não passa pelo mesmo crivo de cobrança social.

Sobre seu firmamento de mulher negra de destaque, Tony revela, “só Deus sabe o quanto me custou, custou minha rede, quando meu pai quis me botar para fora de casa, meus pais não aceitaram quando comecei minha carreira.”

A atriz conta que seus pais só a viram uma única vez em cena, quando atuou pela 1ª vez no Oratório de Santa Luzia. Suas irmãs também mal a viram nos palcos. Contudo, apesar da distância familiar, Tony tem dois sobrinhos na arte cênica de Mossoró, Leonardo Wagner, atual diretor do Chuva de Bala, e Ligia Kiss, integrante da Companhia Pão Doce.

Com seus 40 anos conhecendo como poucos conhecem a cultural local, Silva afirma que nenhuma gestão empreendeu políticas públicas para à cultura mossoroense, “nós não temos políticas públicas, nunca tivemos, quando a política pública existe ela é lei, e não há, nós temos os espetáculos mas não são política pública, política pública que eu entendo tem um outro caminho, um outro sustento dos artistas. Nós temos espetáculos pontuais e pronto.”

Aposentada pelo o Estado do Rio Grande do Norte, a Tony pessoa é dona de casa e cuidadora de sua mãe que tem 92 anos. Silva, que sempre viveu da arte, chegou a trabalhar em paralelo na Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Norte (FUNDASE/RN), desenvolvendo trabalho com menores infratores por quase uma década.

“A Tony religiosa é outra revolucionária”, expressa a atriz. Umbandista, Silva foi uma das primeiras a pensar, no início dos anos 2000, a Louvação ao Baobá, que ocorre todo dia 20 de novembro no centro de Mossoró. Com duas décadas de existência, a louvação marca o encontro dos terreiros de matriz afro-ameríndia da cidade.

Juntamente com Pai Bolinha de Ogum, Ivonete Soares, professora aposentada da UERN, Tony idealizou um encontro dos terreiros do município, via de regra situados na periferia, para celebrarem em comunhão sua religiosidade.

“Para convencer os terreiros à virem para o centro da cidade eu andei muito a pé. Os terreiros tinham receio a virem para o centro. O bacana é que depois da louvação começa a se quebrar esse estigma das pessoas terem medo de usar o turbante, seus colares.”

A louvação hoje reúne não só os terreiros de Mossoró, terreiros de outra cidades vêm para a cerimônia, que conta com uma parceria da UERN.

No ano passado, Tony recebeu o título de Professor Honoris Causa, concedido pela UERN, em comemoração aos 55 anos da instituição. “Foi a coisa mais emocionante que vi na vida”, relata a atriz, que recebeu o título ladeada pelo povo de terreiro.

Um abraço emocionante marcou o fim de meu encontro com essa entidade, que me deixou arrepiado. Do Memorial, Tony seguiu para o ensaio do Chuva de Bala na Escola de Artes de Mossoró.

Com seu sorriso esfuziante, Tony resume um pouco do seu trajeto de 6 décadas de vida, “tem muita coisa na vida da gente, tudo eu aprendi na caminhada, como diz Maria Bethânia, quem quiser ser como eu que calce a sandália que calcei, caminhe, caia e levante-se.”






O Potengi

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Tony Silva: os meandros de uma das grandes atrizes de Mossoró





A encontrei na tarde da última segunda-feira, 27, no centro de Mossoró, no Memorial da Resistência.

Num bate-papo descontraído, longe das formalidades duma entrevista cartorial, ficamos sentados no banco do Memorial por pouco mais de 1 hora. São 40 anos de carreira, numa trajetória marcada por vários sentimentos e embalada por diversas circunstâncias.

Uma das maiores atrizes de Mossoró, do Rio Grande do Norte e do Nordeste, Antônia Lúcia da Silva, simplesmente Tony Silva, é uma entidade, só estando perto dela para sentir sua força e a energia que emana de sua presença.

Com 40 anos de carreira, Silva fala do início de sua trajetória artística, “eu comecei em 1980, aqui em Mossoró, eu era estudante de técnico agrícola na Escola Professor Eliseu Viana, e o curso tinha aulas na ESAM (hoje UFERSA), e lá eu conheci Aécio Cândido e Crispiniano Neto, que eram nossos professores na época.”

Aécio, ex vice-reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), tinha um grupo de teatro, o Terra, e foi a companhia em que Tony fez seu 1º espetáculo. A artista crava com precisão sua data de estreia no palco mossoroense, “03 de novembro de 1981.”

“Circo Alegria do Povo” é o título da peça que fez a Tony de seus 20 e poucos anos estrear no teatro.

Silva passou quase uma década no Terra, tendo posteriormente integrado a companhia Escarcéu, ainda na década de 1980. No início dos anos 90, a convite de Gustavo Rosado, figura articuladora da cena cultural do município à época, a artista funda o grupo de teatro Nocaute à Primeira Vista.

O Nocaute tinha entre um de seus objetivos se firmar no contexto teatral de Mossoró, haja vista que muitas companhias de teatro se formavam e logo depois se desmanchavam.

O Nocaute teve uma atuação ativa durante toda a década de 90, com sua saída da companhia, a artista fundou, ao lado de Damásio Costa, em 1998, A Máscara de Teatro.

“Na Máscara montamos a ‘Viagem de um Barquinho’, depois viemos com ‘Medeia’. Em 2005, ano de ‘Medeia’, saíamos dos ensaios do Auto da Liberdade, íamos para um galpão ensaiar ‘Medeia’, terminávamos os ensaios de 03 horas da manhã, tomávamos um banho, cada um ia para suas casas, dormia 2, 3 horas e quando acordava já ia para os seus trabalhos.”

Figura presente no Oratório de Santa Luzia, Tony desde o início integrou o espetáculo que conta a história da padroeira dos católicos mossoroenses, no auto encenado nos festejos da Santa, em dezembro. A personagem que encenou durante anos, a Cega, que conta a história na peça, ficou marcada no imaginário teatral mossoroense.

Silva revela que a Cega foi inspirada numa mulher real. Dona Nicácia, atuante na paróquia de Santa Luzia, mesmo depois de perder a visão, continuou se dedicando às atividades religiosas. Tony fez um estudo de pesquisa “barra”, em suas próprias palavras, para construir a personagem inspirada em Dona Nicácia.

A história da artista no Chuva de Bala no País de Mossoró, se inicia com Antônio Abujamra, o 1º diretor do espetáculo. São 16 anos atuando no auto que ocorre em junho, na programação do Mossoró Cidade Junina.

Mulher, negra e artista, Tony é uma negra que conseguiu importante espaço na arte cênica, “você não sabe a barra que a gente passa”. A “nêga Tony”, expressão ainda usada para se referir a artista, mostra o quanto o corpo da mulher negra vem antes do talento da atriz Tony Silva.

A artista diz que Gustavo Rosado foi importante colaborador para sua inserção no cenário cênico, “antes de ser atriz eu sou mulher e negra, e tenho que matar 10 leões por dia para ser reconhecida. Eu tenho a minha estrada, o meu objetivo é se reconhecer na pele de cada negra que está na cidade.”

A fama de abusada recai sobre uma negra, que é cobrada por sua antipatia, enquanto a acidez de atrizes brancas não passa pelo mesmo crivo de cobrança social.

Sobre seu firmamento de mulher negra de destaque, Tony revela, “só Deus sabe o quanto me custou, custou minha rede, quando meu pai quis me botar para fora de casa, meus pais não aceitaram quando comecei minha carreira.”

A atriz conta que seus pais só a viram uma única vez em cena, quando atuou pela 1ª vez no Oratório de Santa Luzia. Suas irmãs também mal a viram nos palcos. Contudo, apesar da distância familiar, Tony tem dois sobrinhos na arte cênica de Mossoró, Leonardo Wagner, atual diretor do Chuva de Bala, e Ligia Kiss, integrante da Companhia Pão Doce.

Com seus 40 anos conhecendo como poucos conhecem a cultural local, Silva afirma que nenhuma gestão empreendeu políticas públicas para à cultura mossoroense, “nós não temos políticas públicas, nunca tivemos, quando a política pública existe ela é lei, e não há, nós temos os espetáculos mas não são política pública, política pública que eu entendo tem um outro caminho, um outro sustento dos artistas. Nós temos espetáculos pontuais e pronto.”

Aposentada pelo o Estado do Rio Grande do Norte, a Tony pessoa é dona de casa e cuidadora de sua mãe que tem 92 anos. Silva, que sempre viveu da arte, chegou a trabalhar em paralelo na Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Norte (FUNDASE/RN), desenvolvendo trabalho com menores infratores por quase uma década.

“A Tony religiosa é outra revolucionária”, expressa a atriz. Umbandista, Silva foi uma das primeiras a pensar, no início dos anos 2000, a Louvação ao Baobá, que ocorre todo dia 20 de novembro no centro de Mossoró. Com duas décadas de existência, a louvação marca o encontro dos terreiros de matriz afro-ameríndia da cidade.

Juntamente com Pai Bolinha de Ogum, Ivonete Soares, professora aposentada da UERN, Tony idealizou um encontro dos terreiros do município, via de regra situados na periferia, para celebrarem em comunhão sua religiosidade.

“Para convencer os terreiros à virem para o centro da cidade eu andei muito a pé. Os terreiros tinham receio a virem para o centro. O bacana é que depois da louvação começa a se quebrar esse estigma das pessoas terem medo de usar o turbante, seus colares.”

A louvação hoje reúne não só os terreiros de Mossoró, terreiros de outra cidades vêm para a cerimônia, que conta com uma parceria da UERN.

No ano passado, Tony recebeu o título de Professor Honoris Causa, concedido pela UERN, em comemoração aos 55 anos da instituição. “Foi a coisa mais emocionante que vi na vida”, relata a atriz, que recebeu o título ladeada pelo povo de terreiro.

Um abraço emocionante marcou o fim de meu encontro com essa entidade, que me deixou arrepiado. Do Memorial, Tony seguiu para o ensaio do Chuva de Bala na Escola de Artes de Mossoró.

Com seu sorriso esfuziante, Tony resume um pouco do seu trajeto de 6 décadas de vida, “tem muita coisa na vida da gente, tudo eu aprendi na caminhada, como diz Maria Bethânia, quem quiser ser como eu que calce a sandália que calcei, caminhe, caia e levante-se.”


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