O primeiro semestre se aproxima e um movimento ocorrido no dia 12 de junho deu o tom de uma reivindicação que vem crescendo há anos e cuja pressão só aumenta. Trata-se da defesa do ensino da língua espanhola nas escolas públicas do Rio Grande do Norte, que voltou a ocupar o centro do debate educacional no estado. O ato político-cultural do dia 12 envolveu professores, estudantes, pesquisadores e representantes da comunidade acadêmica, que se reuniram no Instituto Estadual de Educação Profissional, Tecnologia e Inovação do Rio Grande do Norte (IERN – Campus Natal), durante o evento “Celebrando a Latinidade”, promovido pelo movimento *#FicaEspanhol. O Sinte-RN prestou um apoio importante.
Mais do que uma atividade cultural, o encontro se mostrou uma verdadeira aula pública sobre o papel estratégico do espanhol na formação dos jovens potiguares e na integração do Brasil com a América Latina. Música, manifestações artísticas, comidas típicas e debates deram o tom de um ato que uniu celebração e reivindicação: a aprovação, ainda em 2026, da lei estadual que assegura a permanência da disciplina de espanhol na Rede Estadual de Ensino.
Bruno Vital, do Sinte, destacou que “para os profissionais, essa lei é fundamental, porque ela garante sua permanência na Rede”, lembrando também que o RN tem uma economia com grande ênfase do turismo, o que reforça o caráter central da língua espanhola. Leticia Bento, secretária do grêmio, foi uma das representantes do movimento estudantil, e lembrou o fato de o Enem ofertar inglês e espanhol. “Retirar essa opção do espanhol nas escolas é retirar um direito dos estudantes”.
A mobilização ocorre em um momento decisivo. Já havíamos feito uma matéria sobre o #FicaEspanhol há alguns meses. Agora, a proposta legislativa foi entregue ao Governo do Estado em 2025. Após passar pela Procuradoria-Geral do Estado, o texto aguarda encaminhamento à Assembleia Legislativa, etapa considerada fundamental para que a garantia do ensino de espanhol deixe de depender exclusivamente de decisões administrativas. Amane, que representa o movimento, afirma que essa luta “vem conquistando essa legislação em alguns estados, como Rio Grande do Sul, Paraíba e Roraima”.
O movimento ganha força em um contexto nacional marcado pela revogação da Lei Federal nº 11.161/2005, durante a Reforma do Ensino Médio, em 2017. Desde então, a oferta da disciplina deixou de ser obrigatória em âmbito federal, levando diversos estados a buscar soluções próprias para preservar um componente curricular considerado estratégico para a formação cidadã, acadêmica e profissional dos estudantes.
No Rio Grande do Norte, o #FicaEspanhol atua desde 2019 articulando universidades, professores e estudantes em defesa dessa política pública. Para os organizadores, a permanência do espanhol representa muito mais do que a manutenção de uma disciplina escolar. Trata-se de fortalecer a educação pública, ampliar oportunidades de acesso ao ensino superior por meio do ENEM, favorecer a inserção profissional dos jovens e consolidar os laços culturais, econômicos e políticos entre o Brasil e os países latino-americanos.
Durante a aula pública, estudantes do Ensino Médio assumiram papel de protagonismo, participando de atividades de letramento, manifestações culturais e reflexões críticas sobre a importância da diversidade linguística. O evento também destacou que a eventual não aprovação da lei poderá resultar na retirada gradual da disciplina das escolas estaduais e na redução da carga horária de mais de 500 professores e professoras concursados da rede. “Por isso pedimos à governadora Fátima, à sua base e a todos os deputados que transformem o Espanhol em política de estado, deixando de ser política de governo”.
Em um estado inserido no continente latino-americano, preservar o ensino da língua espanhola significa ampliar horizontes e fortalecer pontes de diálogo. Afinal, ensinar um idioma é também ensinar modos de compreender o mundo. Uma ilustração disso é o fato de estarmos em época de Copa do Mundo e perceber como o espanhol tem papel global de amplo destaque: são 8 os países na Copa que têm no espanhol a língua oficial; mesma quantidade que o inglês e o árabe. É por essas e outras que o movimento #FicaEspanhol segue mobilizado, defendendo que a aprovação da lei estadual em 2026 represente não apenas uma conquista para a categoria docente, mas um investimento duradouro na educação, na cultura e no futuro da juventude potiguar.


