Para iniciar “A Redoma de Vidro”, descreve-se, não a obra, mas o significado em essência, uma distorção da realidade. Vista como uma prisão para Esther, personagem principal, que a evita do poder de se ter relações “normais” com pessoas “normais”, não quero aqui, e não pretendo utilizar enquadramentos sociais como “certo”, ou “errado”.
A obra da Silvia traz emoções que são naturais aos seres humanos como a inveja, egoísmo, medo. Interessante observar algumas passagens como a hora em que a personagem Esther define sua amiga Joan como “um animal de zoológico” a vista dos rapazes que acabam de conhecer, e mesmo assim ela ainda sente certo tipo de inveja da amiga. Uma inveja descrita por ela como “admiração”, mesmo sendo afirmada que coisas como combinar vestidos com bolsas eram vulgar demais, conscientemente, ela opta faze-lo, assim como querer ser convidada para uma festa de formatura.
Em toda trama a personagem principal tem ciência de todas as caixas quais mulheres são enquadradas, relacionamentos e imagens que acham que precisam ter, mas ainda assim, não está livre delas. Sua psique passeia pelas questões mais “banais” como escolher a cor de um sapato, hà questões existenciais de fato, e que a escolha de um sapato esconde muito mais que apenas a escolha de uma cor.
Esther acredita que não viveu por não ter tido seu grande amor da adolescência, não me refiro exclusivamente ao amoroso, se trata também da paixão pela profissão, pela vida em si. Como já mencionei a personagem era totalmente racional à estas questões, e até percebo que se esforçou em certas passagens a ser fútil, como julgava suas colegas serem, mas não conseguiu. Quando tentou, percebeu que por traz destas “futilidades”, o eu, a psique, a alma, escondem muito mais.
Há um vasto espaço que precisamos mapear dentro da nossa consciência, ao qual mapeamos de acordo com as nossas próprias experiências e interpretações do mundo, como leitora, acredito que a Esther o percorreu, mas mais do que isso, ela descobriu o porquê, achamos que “precisamos” percorre-lo.
Sim, mesmo sendo trágico, é fascinante ler e descobrir alguns insights ao decorrer da obra. Não, não estou romantizando a morte, mesmo sendo ela, algo natural. Nem muito menos os internatos em sanatórios, minha menção aqui é totalmente ligada a obra e a personagem, somente. Apesar da piora em seu quadro, a personagem cresce, sim, ela cresce após dificuldades. No inicio da leitura pensei mesmo que o livro se trataria de mais um romance em que uma adolescente se lamenta por não ter um namorado, ou por não ter certeza sobre o caminho e profissão que escolheu, mesmo sendo jovem e tendo um futuro promissor pela frente, e sim, até certo ponto é do que se trata, mas ela continua, ora, ela questiona tudo o que nós já questionamos, independente de gênero ou classe são questões que nos atinge como seres humanos, é sobre como existimos, queremos ser reais.
Mas quando chegamos á vida adulta não podemos parar para fazermos as mesmas ou novas perguntas, por que estamos ocupados sobrevivendo, tendo emprego, faculdades, filhos, enfim, apenas não nos preocupamos mais com as mesmas coisas, e talvez, seja por medo de estagnar. O que achamos que acontece com a personagem, mas que pelo contrário, pois a todo momento ela avança em mais uma questão pessoal.





