A suspensão de quase R$ 39 bilhões em investimentos em energias renováveis no Nordeste, anunciada por entidades do setor para o biênio 2025-2026, acendeu um alerta no Rio Grande do Norte, estado que se consolidou na última década como uma das principais vitrines da transição energética brasileira. O movimento, segundo representantes da indústria, expõe problemas estruturais do sistema elétrico nacional, especialmente os cortes forçados de geração — conhecidos como curtailment —, além da insuficiência de linhas de transmissão, insegurança regulatória e aumento dos custos operacionais.
O tema ganhou força após reportagem do Valor Econômico apontar a suspensão de R$ 38,8 bilhões em investimentos e a possibilidade de empresas migrarem para outras regiões do país. No RN, representantes do setor afirmam que o cenário ameaça empregos, arrecadação e o papel estratégico do estado na expansão da matriz limpa brasileira.
O problema central é o descompasso entre a velocidade de expansão da geração e a capacidade do sistema elétrico de absorver e transportar essa energia. O Nordeste concentra hoje a maior base de geração renovável do país, com forte crescimento da energia eólica e solar. Dados recentes da Aneel mostram que o RN segue entre os estados líderes em expansão renovável, enquanto a Bahia possui o maior portfólio regional do país em potência instalada.
Na prática, porém, parte crescente dessa energia não consegue ser escoada. Entre setembro de 2023 e novembro de 2025, os prejuízos nacionais causados pelos cortes de geração chegaram a cerca de R$ 7,8 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica). Mais de 95% desses cortes ocorreram no Nordeste, tendo Ceará e Rio Grande do Norte entre os estados mais afetados.
Em março deste ano, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) chegou a restringir 12.609 MW de geração renovável no Nordeste — volume comparado por analistas à potência de uma usina como Belo Monte.
No RN, os impactos econômicos já começam a aparecer de forma concreta. Segundo dados citados por entidades do setor, os prejuízos associados aos curtailments chegaram a R$ 2,24 bilhões em 2025. Além disso, o estado registrou recentemente a devolução de outorgas para projetos solares e eólicos. Somente no segmento fotovoltaico, 51 projetos deixaram de avançar, frustrando cerca de R$ 13 bilhões em investimentos. Já na energia eólica, 16 projetos tiveram outorgas devolvidas, representando perda estimada de R$ 3,1 bilhões.
O paradoxo é que a crise ocorre justamente quando o Nordeste reúne algumas das melhores condições naturais do mundo para geração limpa. Empresas como Casa dos Ventos e Vestas afirmam manter interesse em continuar investindo na região, mas reconhecem que o setor depende de ajustes estruturais urgentes.
Entre as soluções apontadas estão a ampliação das linhas de transmissão, investimentos em sistemas de armazenamento por baterias (BESS) e maior previsibilidade regulatória. Em março, um leilão da Aneel contratou R$ 3,3 bilhões em novos investimentos em transmissão, incluindo obras no RN e em outros estados nordestinos.
Para especialistas, o risco é que o Nordeste — justamente a região mais preparada para liderar a transição energética brasileira — passe a perder competitividade por incapacidade de transformar abundância de recursos naturais em segurança para investidores.





