Quem pode aproveitar os dias de sol na praia? PEC das Praias que vai decidir…







Quem pode aproveitar os dias de sol na praia? PEC das Praias que vai decidir…







Nós vamos invadir sua praia! Quando a banda Ultraje a Rigor lançou esta música, em 1985, estava celebrando a liberdade de todos ao usufruir de espaços públicos.

“Daqui do morro dá pra ver tão legal o que acontece aí no seu litoral”.

A música, sem sombra de dúvidas, era um hino da miscigenação na realidade da época, quando no Rio de Janeiro, uma linha de ônibus que ligava a Zona Norte à Zona Sul foi criada, causando indignação das classes médias e das elites cariocas. A letra avisava: “Mais do que um bom bronzeado, nós queremos estar do seu lado”.

Como assim, gente? Arruinar a segregação e permitir que pobres venham à praia pagando apenas uma passagem? Um vídeo da época emoldura a indignação de uma jovem com a presença de pessoas de “outro nível” na praia. “Tem que privatizar”, ela dizia. “Não pode tirar o pessoal do Meyer, do mangue e botar em Copacabana”. Outro entrevistado, mais comedido disse:

“Não sou contra pobre, nem nada, mas…”

Mas em 2024, como numa realidade paralela, o sonho de uma praia sem pobres ou sem farofa ou com classes sociais e geográficas diferentes, voltou à pauta daqueles, para quem o sol sempre brilha.

O debate em torno da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 03/2022, que tem sido chamada de PEC das Praias, tem gerado intensa discussão entre políticos, especialistas, sociedade civil e celebridades. 

Nas redes sociais e veículos de imprensa, a população tem acompanhado desde as rinhas entre Neymar e Luana Piovani, apelos de surfistas e ambientalistas contrários ao projeto e até o relator da proposta, Flávio Bolsonaro, dizendo em um vídeo que não é bem assim. Alerta de spoiler: é bem assim, sim.

Mas vamos por partes? 

A proposta apresentada no Congresso Nacional tenta revisar o artigo da Constituição Federal que trata da demarcação e utilização das áreas de praia no Brasil. O tema tem sido chamado popularmente de privatizar as praias, por prever a entrega de terrenos costeiros a estados, municípios e à iniciativa privada, para fins imobiliários.

Estas áreas de praia, os terrenos de marinha, ficam ao longo da costa que pertence à União, estendendo-se desde uma linha imaginária da costa até cerca de 33 metros para o interior do continente. Essas terras são consideradas estratégicas pelo governo. Além disso, são classificadas como áreas de preservação ambiental e possuem restrições quanto a sua ocupação e uso. 

Em outras palavras, boa parte desta área é aquela que frequentamos nos dias de folga, feriados, caminhadas matinais, fins de tarde com caipirinha. Lá mesmo onde todos se misturam nos mesmos sol, mar e areia.

“Não é bem assim!” Há controvérsias…

Entre os pontos mais controversos da proposta está a possibilidade de flexibilização das restrições à construção civil em faixas de terrenos próximas ao mar. Sim… construir nos terrenos da marinha. E sim, talvez (talvez?) os novos empreendimentos, resorts de luxo exclusivíssimos, hotéis pé na areia e restaurantes com uma vista inigualável e, agora particular, não permitam seu acesso à praia.

Os especialistas em meio ambiente alertam para os possíveis impactos negativos que a flexibilização das regras de ocupação do litoral pode causar. O aumento da urbanização e a construção desenfreada em áreas sensíveis podem resultar em danos irreparáveis aos ecossistemas costeiros, incluindo a destruição de habitats naturais e a erosão das praias.

Já os defensores dos direitos das comunidades locais e dos frequentadores das praias expressam preocupação com a possível restrição do acesso público às áreas litorâneas. Há ainda a garantia do direito de ir e vir, que é fundamental para a democracia e o bem-estar social, e qualquer mudança na legislação deve assegurar o acesso livre e irrestrito às praias para todos os cidadãos.

Venha para o Caribe Brasileiro

O jogador Neymar Júnior, que negou em suas redes sociais ter qualquer interesse ou relação com a PEC, também declarou nas mesmas redes:

“Estou junto com a Due na criação da ‘rota Due Caribe Brasileiro’. Vamos transformar o litoral nordestino e trazer muito desenvolvimento social e econômico para a região”.

O tal Caribe Brasileiro ao qual ele se refere, é um projeto da Due Incorporadora que prevê a construção de 28 imóveis, claro, de alto padrão, entre os litorais de Pernambuco e Alagoas. Corre à boca miúda que o faturamento é estimado em 7,5 bilhões de reais. 

O que dizem os apoiadores da proposta

Alguns setores argumentam que a flexibilização das regras pode estimular o desenvolvimento econômico das regiões costeiras, gerando empregos e oportunidades de investimento. A promoção do turismo e a construção de infraestrutura podem impulsionar a economia local, claro, realizadas de maneira sustentável e responsável.

À medida que o debate sobre a PEC das Praias continua, é fundamental que as implicações sociais e ambientais sejam cuidadosamente consideradas e respeitadas. A proposta levanta preocupações legítimas sobre o acesso público e a preservação dos ecossistemas costeiros. 

Em um momento em que a inclusão e a sustentabilidade são mais importantes do que nunca, a possibilidade de privatização coloca em risco os direitos e os bens naturais que pertencem a todos.


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