Os dados divulgados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) nesta quarta-feira (29) parecem, à primeira vista, apenas mais um número em meio a tantos outros: 28 dos 29 setores industriais registraram falta de confiança em abril. Um dado técnico que aponta para o pessimismo da indústria. Um detalhe estatístico. Mas será que fica só nisso mesmo?
Cabe perguntar: quando quase toda a indústria perde confiança, ainda estamos falando de “setores” ou de um clima geral, uma espécie de atmosfera econômica? A resposta parece clara: não se trata mais de casos isolados. O pessimismo deixou de ser exceção e se tornou regra.
O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), que varia de 0 a 100 pontos — sendo que valores abaixo de 50 indicam falta de confiança — revela um movimento contínuo. Em janeiro, o cenário já era ruim: 20 setores estavam sem confiança. Em fevereiro, 21. Em março, 23. Agora, em abril, 28. O que vemos aqui não é uma oscilação, mas uma tendência. Mas tendência de quê?
A explicação mais imediata, quase automática, aponta para os juros altos. A própria CNI identifica esse fator como central: a elevação da taxa básica desde o fim de 2024 teria corroído a confiança ao longo do tempo. No entanto, essa resposta, ainda que correta, talvez seja insuficiente. Temos acordo que os juros nos atuais patamares são proibitivos para um desenvolvimento industrial. Mas eles explicam tudo?
Se explicassem, bastaria uma leve redução para reverter o quadro. Só que não é o que ocorre. A recente queda de apenas 0,25 ponto percentual mostrou-se incapaz de alterar o humor do empresariado. Parece então que o problema não está apenas no nível dos juros, mas numa percepção de instabilidade mais ampla.
O pessimismo afeta todo mundo. Pequenas, médias e grandes empresas — todas apresentam falta de confiança. Regionalmente, o cenário é igualmente homogêneo: o Nordeste, por exemplo, caiu abaixo da linha dos 50 pontos pela primeira vez desde 2020. Com isso, todas as regiões do país passam a compartilhar o mesmo diagnóstico: desconfiança. Então, a pergunta muda de forma: não é mais “por que alguns setores estão pessimistas?”, mas “o que aconteceu para que quase ninguém esteja otimista?”.
Alguns setores ilustram esse quadro de forma particularmente intensa. Produtos de material plástico, celulose e papel, máquinas e equipamentos e metalurgia aparecem entre os mais afetados, todos com índices próximos ou abaixo de 43 pontos. Em contraste quase irônico, apenas o setor farmoquímico e farmacêutico permanece acima da linha de confiança, com 52 pontos — como se, em meio à incerteza generalizada, a saúde (ou a necessidade dela) ainda oferecesse alguma estabilidade.
Mas há algo mais aqui. A confiança, ao contrário do que se pensa, não é apenas uma variável econômica. Ela é também uma construção simbólica. Empresários não reagem apenas a números, mas a expectativas, narrativas, sinais difusos. Quando essa confiança cai, não é apenas porque o presente é ruim, mas porque o futuro parece opaco.
Pode ser esse, então, o ponto central: a indústria não está apenas reagindo ao que é, mas ao que pode vir a ser.
O índice de condições atuais permanece abaixo de 50 pontos, indicando que os empresários avaliam o presente como pior do que seis meses atrás. Já o índice de expectativas, que chegou a esboçar uma leve recuperação no início do ano, não conseguiu sustentar esse movimento. Isso nos põe diante de um paradoxo: mesmo quando há pequenos sinais de melhora, eles não são suficientes para produzir confiança. A questão é: por que não?
Ora, a confiança não se constrói apenas com dados positivos pontuais. Ela exige consistência, previsibilidade, projeto — artigos escassos no Brasil em que mercado, políticos e imprensa vivem sob a ditadura do curto prazo. No fim das contas, talvez a indústria brasileira não esteja pessimista por causa da economia — talvez seja precisamente a economia que esteja començando a refletir um pessimismo mais profundo da própria sociedade.





