Pelo olhar, Bia Beatriz



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Desde o mês passado que estou a procura dela. Para ser mais preciso, desde meados de maio. Presença constante no Vuco-vuco e no hotel Caraúbas, no centro de Mossoró, ela estava sumida já fazia umas semanas dos dois locais que sempre frequentou.

Consegui o contato de uma pessoa que a conhecia, Marcus Vinícius, me falou que ela morava na rua Juvenal Lamartine, no bairro Bom Jardim, na fronteira entre o centro e a zona norte. Quando já ia procurá-la na Juvenal, Marcus me informa que ela não estava mais morando lá, foi informado por alguém que seu endereço era outro.

Na penúltima semana de maio, sábado, 25, voltei ao Caraúbas, um grupo de mulheres me falou que ela não tinha aparecido mais. Uma delas sentenciou: “venha próximo sábado, é dia de ‘Pingo’, ela sempre aparece.” Uma outra na porta do hotel me disse que ela estava morando nas Abolições: “parece que é no Abolição 4, no Abolição 5, é por ali.”

No dia 1º de junho, dia de “Pingo da Mei Dia”, vou ao Caraúbas, chego por volta de 10h30, entro e não a vejo, sou informado que ela não se encontrava. Sem saber o que fazer, olho para a venda de espetinho de frente ao hotel, na esperança de encontrá-la ainda naquele mesmo dia, decido deixar meu contato com a mulher do espetinho. Digo que se ela aparecer entre em contato comigo que venho para vê-la.

Assim que chego em casa, uma mensagem de áudio no WhatsApp: “ei, sou eu, a Galega do espetinho, Bia chegou aqui no hotel.”

Vou voando, quando entro, a vejo logo na entrada. Enfim, encontro Bia Beatriz.

Pergunto se tem interesse em me conceder uma entrevista. Ela fica balançada, porque já havia sido procurada para tanto e seu nome havia sido usado com fins desonestos. Com mais um minuto de conversa consigo convencê-la.

Bia de fato está morando para as bandas dos Abolições, no Pousada das Thermas.

Me passa seu endereço e digo que vou na quinta-feira, 06. Contudo, na semana marcada não tive como ir. Fui na segunda-feira passada, 10. Andei um pouco para encontrar sua casa, pedi informações aos vizinhos que me levaram ao endereço exato. Chamei, chamei, mas ninguém atendeu. Sem saber o que fazer, pego o número de WhatsApp da bodega de frente a residência. O vizinho me disse que Bia morava com sua irmã. Na esperança de conseguir falar com a irmã, anoto o número da bodega.

No mesmo dia entro em contato com o zap, sou respondido no dia seguinte. Pergunto se a irmã de Bia tem zap, a mulher me envia o contato. Suelen é o nome da irmã de Bia.

Falo com Suelen, ela estava no trabalho, disse que assim que chegasse falaria com Bia. Na noite de terça-feira Suelen me dá retorno, minha visita fica pré-agendada para sexta-feira ou sábado. Na quinta-feira, 13, falo com Suelen para minha ida ocorrer na tarde de sexta, às 15h. Ela fala com Bia e me dá a confirmação.

Bia Beatriz não tem celular, muito menos redes sociais.

Chego no Pousada das Thermas por volta de 15h30, Bia está a me esperar no portão de sua casa.

Enfim, sento e começo a conversar com aquela que é tida como uma figura folclórica em Mossoró.

O glamour da Bia Beatriz personagem encontra seu aconchego na Bia Beatriz em sua intimidade. A Bia pessoa privada é de uma humildade e simplicidade estampadas em seu olhar. Pelo olhar, o que se vê é uma Bia em sua humanidade mais gente como a gente impossível.

“Bia Beatriz sempre foi essa pessoa firme e forte com muita fé em Deus”, são suas primeiras palavras em nossa conversa. Bia é uma travesti em sua identidade de gênero. Não se importa de ser chamada por ela ou por ele. O ele é muito presente no seu dia a dia, seus familiares e vizinhos o usam para se referir a Bia no pronome masculino.

Desde os 15 anos, quando não se via mais em consonância com o masculino, Bia, que naquela altura ainda não se chamava Bia Beatriz, se assume travesti. O que marca a sua trajetória é o acolhimento familiar. Sua mãe apoiou desde o início, o seu pai não via com bons olhos, mas não rejeitou a filha.

Em agosto de 2019 Beatriz sofreu um grave acidente quando estava saindo do hotel Caraúbas, a queda sofrida a fez ficar internada durante um 1 mês e 18 dias no Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM). À época surgiu a hipótese de Bia ter sido vítima de transfobia. Contudo, ela me falou que a queda foi por conta de grande quantidade de álcool ingerido. Naquele dia, Bia tinha bebido muito, e mal se alimentou, ao sair do Caraúbas estava tão debilitada que caiu brutalmente no chão.

Nos dias que esteve no HRTM, em coma, Bia esteve acompanhada de Suelen, responsável pelos cuidados até sua total recuperação.

Beatriz relembra do ocorrido, e diz que recebeu apoio de muita gente. Cestas básicas, fraldas geriátricas, ajuda financeira e produtos de higiene foram doados por várias pessoas.

“Deus me ajudou, com a oração de muitas pessoas, Deus me deu outra renovação de vida”, é assim que Beatriz se refere aos dias que esteve internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Nascida em 1983, no bairro Bom Jardim, Bia viveu durante décadas na rua Juvenal Lamartine. Neta da famosa carnavalesca Cristina Gomes, mais conhecida como Cristina dos Pimpões, por conta do bloco de rua que organizou durante anos, Os Pimpões, Beatriz desde que não se via mais num corpo masculino me conta que recebeu o apoio da família materna e paterna, “eu não me sentia no corpo de um homem, eu me olhava no espelho e não me via como homem”.

“Quando virei uma travesti, eu cheguei para minha e disse: mãe eu vou virar uma travesti”, sua mãe, Vera Lúcia, lhe respondeu, “o mesmo amor que vou dar aos outros vou dar a você também”. Beatriz confidencia que seu pai, Antônio José, teve uma rejeição quando sua travestilidade veio à tona, “mas agora ele é mais chegado para o meu lado”, revela.

O nome Bia Beatriz veio aos 16 anos. Foram seus colegas da Escola Estadual Jerônimo Rosado, no ensino médio, que colocaram o prenome, quando venceu a eleição para o grêmio estudantil. A transição entre escolas, dos 15 aos 16 anos, quando terminou o ensino fundamental e ingressou no médio, coincide com sua mudança de identidade de gênero.

Beatriz conta que foi vítima de muita agressão verbal, “eu pensava assim, meu Deus, eu vou me vestir de mulher, como o povo vai me ver? Como minha família vai me ver? Como eles vão me apoiar? E eu disse: vou me vestir de mulher, e vou pedir a Deus para enfrentar o mundo.”

E a coragem para se assumir travesti? Bia diz que veio lá de dentro, “não sei como veio, simplesmente veio.” A coragem que ela define como um dom, “é um dom que tenho.”

“Meu sonho era ser mariposa”, diz Beatriz, se referindo a tradicional competição que ocorria no carnaval de Mossoró. A vitória veio em 2008, aos 25 anos. “Já ganhei em rainha dos bairros, rainha do sabugo fiquei em 3º lugar, vários concursos eu já ganhei, e isso me dá vontade de viver, é muito bom ser rainha, muito bom o glamour, o respeito, os fotógrafos tirando fotos.”

Se a idade não é problema algum ser perguntada, seu nome de registro também não é. Maxsuendio Paulista Figueiredo é o nome que consta no registro civil, que Bia diz ter vontade de um dia mudar, “quero botar Bia Beatriz Paulista Figueiredo”.

O teatro e a dança fizeram parte de sua vida, ajudando como uma espécie de terapia, “quando a gente dança a gente vai esquecendo as coisas ruins que já passaram, e ali a gente vai vivendo as coisas boas.” A convite do diretor e ator Dionízio do Apodi, Beatriz fez parte do elenco do filme “Um Chão de Esperança”, em 2005, interpretando a si mesma.

Bia revela os receios que tinha quando do início de sua travestilidade, do medo de apanhar, de ser apedrejada, e confidencia que Deus sempre foi o suporte para superar tudo. Foi sua ânsia de viver, de ser feliz, que a fez suplantar todos os sentimentos de pânicos que vinham a sua mente, “a gente tem que viver”.

A saída de décadas de residência na Juvenal Lamartine, que a afastou do Vuco-vuco, do hotel Caraúbas, de sua casa de umbanda, foi ocasionada por um episódio de violência, uma morte de uma pessoa próxima, que frequentava a casa e morreu na calçada da residência. Com Suelen, Bia decidiu morar no Pousada, bairro do outro lado da cidade, na zona oeste, onde a filha de Suelen já morava.

A lonjura do Pousada das Thermas, numa das zonas mais populosas de Mossoró, marcada por distâncias grandes entre as casas dos bairros conglomerados da zona, fez com que Bia se tornasse mais caseira. Os cuidados com sua mãe, Vera Lúcia, também fizeram Beatriz ficar mais reclusa em casa. Vera sofre de alzheimer, e enquanto Suelen está trabalhando, Bia é quem cuida da mãe.

O desejo de Bia é voltar para as redondezas do Bom Jardim, bairro que a viu nascer e acompanhou sua efervescência na cena social e cultural mossoroense.

Apegada a sua mãe, Beatriz manifesta o medo que tem de perdê-la, “tenho muito medo de perder mãe, peço todo dia a Deus pela saúde dela, é a única riqueza que tenho na minha vida.”

As sequelas do acidente de 2019 fez com que Bia se aposentasse. A marca da traqueostomia, procedimento cirúrgico necessário por conta do trauma na face com fraturas múltiplas, é visível na região da garganta de Beatriz. A sua audição no ouvido esquerdo ficou comprometida, Bia só ouve parcialmente.

O Caraúbas e o Vuco-vuco são indissociáveis na vida de Bia Beatriz, “carinho e respeito encontrei lá, quando eu não vou o povo sente é falta.” Bia diz que os lugares, principalmente o Caraúbas, teceram uma rede de dinâmica social, foi lá que conheceu outras travestis, que se tornaram grandes amigas.

O Clube dos Cafonas é outro lugar de memória da travesti. O famoso clube de música popular e brega de Mossoró, recebia todo sábado sua presença. Beatriz lembra com gratidão de Vagner, cantor dos Cafonas que a ajudou quando de seu acidente.

Sobre as agressões, transfobias e dificuldades na vida, Beatriz diz que foram superas. Sua vontade é de viver, de ver todas as travestis vencendo na vida, “não tenho mais tristeza em meu coração, tenho alegria, a fortaleza de vencer, como eu venci.”

A umbanda é outro alicerce de Bia. Frequentadora do terreiro de Pai Neto, no Bom Jardim, sua frequência se tornou menos assídua por conta da morada no Pousada, “quando morava no Bom Jardim sempre ia, aqui já é mais difícil, quando vou pego carona ou minha sobrinha vai me deixar, vou dia de quinta-feira, dia de gira, durmo lá e volto na sexta pela manhã. A umbanda me ensinou a ter atenção para viver, para me cuidar mais, ter forças. Peço proteção sempre aos meus orixás, Xangô e Yansã.”

A casa da Juvenal Lamartine está a venda. Bia quer sair do Pousada das Thermas, onde já está há uns 6 anos, mas a decisão passa por Suelen.

A prosa se estendeu para além do encerramento do papo registrado no gravador de voz, momento em que Suelen chegou. A irmã de Bia trabalha num restaurante e nos fins de semana faz bolo. Pergunto se tem pretensão de sair do Pousada, Suelen diz que sim, “tenho vontade de ir morar no Nova Bethânia ou no Alto São Manoel”.

Na despedida Bia me convida para voltar sempre que quiser. O abraço afetuoso da mais famosa travesti de Mossoró, encerrou uma tarde banhada de humildade. Pelo olhar, o que enxerguei foi um dos seres humanos mais simples e verdadeiros que vi na vida.






O Potengi

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Pelo olhar, Bia Beatriz





Desde o mês passado que estou a procura dela. Para ser mais preciso, desde meados de maio. Presença constante no Vuco-vuco e no hotel Caraúbas, no centro de Mossoró, ela estava sumida já fazia umas semanas dos dois locais que sempre frequentou.

Consegui o contato de uma pessoa que a conhecia, Marcus Vinícius, me falou que ela morava na rua Juvenal Lamartine, no bairro Bom Jardim, na fronteira entre o centro e a zona norte. Quando já ia procurá-la na Juvenal, Marcus me informa que ela não estava mais morando lá, foi informado por alguém que seu endereço era outro.

Na penúltima semana de maio, sábado, 25, voltei ao Caraúbas, um grupo de mulheres me falou que ela não tinha aparecido mais. Uma delas sentenciou: “venha próximo sábado, é dia de ‘Pingo’, ela sempre aparece.” Uma outra na porta do hotel me disse que ela estava morando nas Abolições: “parece que é no Abolição 4, no Abolição 5, é por ali.”

No dia 1º de junho, dia de “Pingo da Mei Dia”, vou ao Caraúbas, chego por volta de 10h30, entro e não a vejo, sou informado que ela não se encontrava. Sem saber o que fazer, olho para a venda de espetinho de frente ao hotel, na esperança de encontrá-la ainda naquele mesmo dia, decido deixar meu contato com a mulher do espetinho. Digo que se ela aparecer entre em contato comigo que venho para vê-la.

Assim que chego em casa, uma mensagem de áudio no WhatsApp: “ei, sou eu, a Galega do espetinho, Bia chegou aqui no hotel.”

Vou voando, quando entro, a vejo logo na entrada. Enfim, encontro Bia Beatriz.

Pergunto se tem interesse em me conceder uma entrevista. Ela fica balançada, porque já havia sido procurada para tanto e seu nome havia sido usado com fins desonestos. Com mais um minuto de conversa consigo convencê-la.

Bia de fato está morando para as bandas dos Abolições, no Pousada das Thermas.

Me passa seu endereço e digo que vou na quinta-feira, 06. Contudo, na semana marcada não tive como ir. Fui na segunda-feira passada, 10. Andei um pouco para encontrar sua casa, pedi informações aos vizinhos que me levaram ao endereço exato. Chamei, chamei, mas ninguém atendeu. Sem saber o que fazer, pego o número de WhatsApp da bodega de frente a residência. O vizinho me disse que Bia morava com sua irmã. Na esperança de conseguir falar com a irmã, anoto o número da bodega.

No mesmo dia entro em contato com o zap, sou respondido no dia seguinte. Pergunto se a irmã de Bia tem zap, a mulher me envia o contato. Suelen é o nome da irmã de Bia.

Falo com Suelen, ela estava no trabalho, disse que assim que chegasse falaria com Bia. Na noite de terça-feira Suelen me dá retorno, minha visita fica pré-agendada para sexta-feira ou sábado. Na quinta-feira, 13, falo com Suelen para minha ida ocorrer na tarde de sexta, às 15h. Ela fala com Bia e me dá a confirmação.

Bia Beatriz não tem celular, muito menos redes sociais.

Chego no Pousada das Thermas por volta de 15h30, Bia está a me esperar no portão de sua casa.

Enfim, sento e começo a conversar com aquela que é tida como uma figura folclórica em Mossoró.

O glamour da Bia Beatriz personagem encontra seu aconchego na Bia Beatriz em sua intimidade. A Bia pessoa privada é de uma humildade e simplicidade estampadas em seu olhar. Pelo olhar, o que se vê é uma Bia em sua humanidade mais gente como a gente impossível.

“Bia Beatriz sempre foi essa pessoa firme e forte com muita fé em Deus”, são suas primeiras palavras em nossa conversa. Bia é uma travesti em sua identidade de gênero. Não se importa de ser chamada por ela ou por ele. O ele é muito presente no seu dia a dia, seus familiares e vizinhos o usam para se referir a Bia no pronome masculino.

Desde os 15 anos, quando não se via mais em consonância com o masculino, Bia, que naquela altura ainda não se chamava Bia Beatriz, se assume travesti. O que marca a sua trajetória é o acolhimento familiar. Sua mãe apoiou desde o início, o seu pai não via com bons olhos, mas não rejeitou a filha.

Em agosto de 2019 Beatriz sofreu um grave acidente quando estava saindo do hotel Caraúbas, a queda sofrida a fez ficar internada durante um 1 mês e 18 dias no Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM). À época surgiu a hipótese de Bia ter sido vítima de transfobia. Contudo, ela me falou que a queda foi por conta de grande quantidade de álcool ingerido. Naquele dia, Bia tinha bebido muito, e mal se alimentou, ao sair do Caraúbas estava tão debilitada que caiu brutalmente no chão.

Nos dias que esteve no HRTM, em coma, Bia esteve acompanhada de Suelen, responsável pelos cuidados até sua total recuperação.

Beatriz relembra do ocorrido, e diz que recebeu apoio de muita gente. Cestas básicas, fraldas geriátricas, ajuda financeira e produtos de higiene foram doados por várias pessoas.

“Deus me ajudou, com a oração de muitas pessoas, Deus me deu outra renovação de vida”, é assim que Beatriz se refere aos dias que esteve internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Nascida em 1983, no bairro Bom Jardim, Bia viveu durante décadas na rua Juvenal Lamartine. Neta da famosa carnavalesca Cristina Gomes, mais conhecida como Cristina dos Pimpões, por conta do bloco de rua que organizou durante anos, Os Pimpões, Beatriz desde que não se via mais num corpo masculino me conta que recebeu o apoio da família materna e paterna, “eu não me sentia no corpo de um homem, eu me olhava no espelho e não me via como homem”.

“Quando virei uma travesti, eu cheguei para minha e disse: mãe eu vou virar uma travesti”, sua mãe, Vera Lúcia, lhe respondeu, “o mesmo amor que vou dar aos outros vou dar a você também”. Beatriz confidencia que seu pai, Antônio José, teve uma rejeição quando sua travestilidade veio à tona, “mas agora ele é mais chegado para o meu lado”, revela.

O nome Bia Beatriz veio aos 16 anos. Foram seus colegas da Escola Estadual Jerônimo Rosado, no ensino médio, que colocaram o prenome, quando venceu a eleição para o grêmio estudantil. A transição entre escolas, dos 15 aos 16 anos, quando terminou o ensino fundamental e ingressou no médio, coincide com sua mudança de identidade de gênero.

Beatriz conta que foi vítima de muita agressão verbal, “eu pensava assim, meu Deus, eu vou me vestir de mulher, como o povo vai me ver? Como minha família vai me ver? Como eles vão me apoiar? E eu disse: vou me vestir de mulher, e vou pedir a Deus para enfrentar o mundo.”

E a coragem para se assumir travesti? Bia diz que veio lá de dentro, “não sei como veio, simplesmente veio.” A coragem que ela define como um dom, “é um dom que tenho.”

“Meu sonho era ser mariposa”, diz Beatriz, se referindo a tradicional competição que ocorria no carnaval de Mossoró. A vitória veio em 2008, aos 25 anos. “Já ganhei em rainha dos bairros, rainha do sabugo fiquei em 3º lugar, vários concursos eu já ganhei, e isso me dá vontade de viver, é muito bom ser rainha, muito bom o glamour, o respeito, os fotógrafos tirando fotos.”

Se a idade não é problema algum ser perguntada, seu nome de registro também não é. Maxsuendio Paulista Figueiredo é o nome que consta no registro civil, que Bia diz ter vontade de um dia mudar, “quero botar Bia Beatriz Paulista Figueiredo”.

O teatro e a dança fizeram parte de sua vida, ajudando como uma espécie de terapia, “quando a gente dança a gente vai esquecendo as coisas ruins que já passaram, e ali a gente vai vivendo as coisas boas.” A convite do diretor e ator Dionízio do Apodi, Beatriz fez parte do elenco do filme “Um Chão de Esperança”, em 2005, interpretando a si mesma.

Bia revela os receios que tinha quando do início de sua travestilidade, do medo de apanhar, de ser apedrejada, e confidencia que Deus sempre foi o suporte para superar tudo. Foi sua ânsia de viver, de ser feliz, que a fez suplantar todos os sentimentos de pânicos que vinham a sua mente, “a gente tem que viver”.

A saída de décadas de residência na Juvenal Lamartine, que a afastou do Vuco-vuco, do hotel Caraúbas, de sua casa de umbanda, foi ocasionada por um episódio de violência, uma morte de uma pessoa próxima, que frequentava a casa e morreu na calçada da residência. Com Suelen, Bia decidiu morar no Pousada, bairro do outro lado da cidade, na zona oeste, onde a filha de Suelen já morava.

A lonjura do Pousada das Thermas, numa das zonas mais populosas de Mossoró, marcada por distâncias grandes entre as casas dos bairros conglomerados da zona, fez com que Bia se tornasse mais caseira. Os cuidados com sua mãe, Vera Lúcia, também fizeram Beatriz ficar mais reclusa em casa. Vera sofre de alzheimer, e enquanto Suelen está trabalhando, Bia é quem cuida da mãe.

O desejo de Bia é voltar para as redondezas do Bom Jardim, bairro que a viu nascer e acompanhou sua efervescência na cena social e cultural mossoroense.

Apegada a sua mãe, Beatriz manifesta o medo que tem de perdê-la, “tenho muito medo de perder mãe, peço todo dia a Deus pela saúde dela, é a única riqueza que tenho na minha vida.”

As sequelas do acidente de 2019 fez com que Bia se aposentasse. A marca da traqueostomia, procedimento cirúrgico necessário por conta do trauma na face com fraturas múltiplas, é visível na região da garganta de Beatriz. A sua audição no ouvido esquerdo ficou comprometida, Bia só ouve parcialmente.

O Caraúbas e o Vuco-vuco são indissociáveis na vida de Bia Beatriz, “carinho e respeito encontrei lá, quando eu não vou o povo sente é falta.” Bia diz que os lugares, principalmente o Caraúbas, teceram uma rede de dinâmica social, foi lá que conheceu outras travestis, que se tornaram grandes amigas.

O Clube dos Cafonas é outro lugar de memória da travesti. O famoso clube de música popular e brega de Mossoró, recebia todo sábado sua presença. Beatriz lembra com gratidão de Vagner, cantor dos Cafonas que a ajudou quando de seu acidente.

Sobre as agressões, transfobias e dificuldades na vida, Beatriz diz que foram superas. Sua vontade é de viver, de ver todas as travestis vencendo na vida, “não tenho mais tristeza em meu coração, tenho alegria, a fortaleza de vencer, como eu venci.”

A umbanda é outro alicerce de Bia. Frequentadora do terreiro de Pai Neto, no Bom Jardim, sua frequência se tornou menos assídua por conta da morada no Pousada, “quando morava no Bom Jardim sempre ia, aqui já é mais difícil, quando vou pego carona ou minha sobrinha vai me deixar, vou dia de quinta-feira, dia de gira, durmo lá e volto na sexta pela manhã. A umbanda me ensinou a ter atenção para viver, para me cuidar mais, ter forças. Peço proteção sempre aos meus orixás, Xangô e Yansã.”

A casa da Juvenal Lamartine está a venda. Bia quer sair do Pousada das Thermas, onde já está há uns 6 anos, mas a decisão passa por Suelen.

A prosa se estendeu para além do encerramento do papo registrado no gravador de voz, momento em que Suelen chegou. A irmã de Bia trabalha num restaurante e nos fins de semana faz bolo. Pergunto se tem pretensão de sair do Pousada, Suelen diz que sim, “tenho vontade de ir morar no Nova Bethânia ou no Alto São Manoel”.

Na despedida Bia me convida para voltar sempre que quiser. O abraço afetuoso da mais famosa travesti de Mossoró, encerrou uma tarde banhada de humildade. Pelo olhar, o que enxerguei foi um dos seres humanos mais simples e verdadeiros que vi na vida.


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