Entenda a crise boliviana que pode levar à renúncia do presidente e é uma nova preocupação para os Estados Unidos

Marcha popular, bloqueios nas estradas e greve geral estão agitando a Bolívia.

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Ícone de crédito Mineiros são uma das categorias que estão à frente do movimento contra o presidente Paz. Foto: Claudia Morales/Reuters

A Bolívia atravessa uma das mais graves crises políticas e sociais dos últimos anos. Em meio a protestos crescentes, bloqueios de estradas, paralisações urbanas e uma escalada do confronto entre governo e setores mobilizados, o presidente Rodrigo Paz enfrenta uma deterioração acelerada de sua capacidade de governar. O cenário já provoca impactos econômicos concretos, afeta o abastecimento de cidades estratégicas e expõe fissuras dentro do próprio núcleo institucional do Estado boliviano, que está sob condição quase insurrecional.

Nas últimas semanas, manifestações lideradas por sindicatos, mineiros, trabalhadores do transporte e grupos rurais ampliaram a pressão sobre o governo. O estopim imediato é a crise econômica que atravessa o país (marcada pelo aumento do custo de vida, escassez de dólares e dificuldades energéticas), mas o conflito assumiu rapidamente contornos mais profundos. Em vários setores mobilizados, as reivindicações econômicas deram lugar a uma exigência política direta: a renúncia do presidente.

A tensão chegou a um novo patamar quando bancos fecharam temporariamente agências em La Paz diante do agravamento da situação nas ruas. Ao mesmo tempo, diplomatas internacionais passaram a emitir apelos públicos por diálogo e contenção.

Rodrigo Paz: da vitória eleitoral à crise que pode ser definitiva

A ascensão de Paz ocorreu em meio ao desgaste interno do Movimento ao Socialismo (MAS), marcado pela disputa entre Luis Arce e Evo Morales e por uma grave crise econômica, com recessão e desabastecimento de combustíveis. O voto popular contra o MAS acabou migrando para a chapa de direita de Rodrigo Paz e Edmand Lara, impulsionada pela promessa de renovação do Estado Plurinacional e pelo discurso anticorrupção do então candidato a vice-presidente.

No entanto, segundo críticos do governo, Paz rompeu rapidamente com as expectativas populares. Seu gabinete foi acusado de privilegiar elites tradicionais, enquanto medidas econômicas de austeridade agravaram a tensão social. O aumento de 86% na gasolina e de 163% no diesel, além da flexibilização sobre recursos naturais e mudanças na legislação agrária, intensificaram o descontentamento.

Esse cenário, aliado a perseguições perpetradas contra Evo Morales (que recebeu novas ordens de prisão, mas se recusa a se entregar), uma marcha se formou, circulando por milhares de quilômetros e chegando finalmente à capital do país, La Paz. O governo respondeu inicialmente acusando Evo de conspiração, depois tentou negociações e, por fim, passou à repressão, com relatos de mortos durante confrontos.

Bancos fechados e sensação de cerco em La Paz

Na capital boliviana, a deterioração do ambiente urbano tornou-se visível ontem (19). Bancos como Banco Nacional de Bolivia, Banco de Credito de Bolivia (BCP), Banco Economico e Banco Union fecharam parcialmente agências e redirecionaram clientes para serviços online e caixas eletrônicos.

Em declaração à Agência Reuters, funcionários de ao menos cinco instituições financeiras disseram que as operações presenciais não seriam retomadas até que os protestos diminuíssem. A associação bancária ASOBAN evitou comentar diretamente as razões dos fechamentos, limitando-se a afirmar que o sistema continuava parcialmente operacional.

Embora o centro de La Paz tenha permanecido relativamente calmo em determinados momentos, a presença policial foi reforçada, especialmente nos arredores da Plaza Murillo, onde se localiza o palácio presidencial. Paralelamente, protestos e greves de transporte foram registrados na vizinha El Alto.

Nas ruas, a sensação entre moradores é de isolamento progressivo da capital. “É difícil estar na cidade de La Paz. É como se estivéssemos cercados”, afirmou a trabalhadora Ana Uria, relatando falta de vegetais e diesel.

A situação já afeta também os serviços de saúde. Em uma clínica da capital, o médico Jorge Hinojosa relatou dificuldades para obter medicamentos e suprimentos devido aos bloqueios. Uma paciente ferida nos confrontos foi atendida com um improvisado suporte de papelão diante da ausência de equipamentos adequados.

O mapa dos bloqueios

Segundo a Administradora Boliviana de Carreteras (ABC), havia 45 pontos de bloqueio registrados até a tarde de terça-feira. Desse total, 39 concentravam-se nos departamentos de La Paz, Cochabamba e Oruro.

La Paz liderava o número de interrupções, com 17 pontos que mantinham o cerco às cidades de La Paz e El Alto até a conclusão dessa matéria, no início da noite desta terça-feira.

Cochabamba e Oruro registravam 11 bloqueios cada, afetando rotas estratégicas de conexão interdepartamental. Também foram registrados pontos de interrupção em Potosí, Santa Cruz e Chuquisaca.

A gravidade da situação levou a Polícia Boliviana a anunciar a criação de um “corredor humanitário” para permitir a entrada de alimentos, combustível, medicamentos e oxigênio na capital.

Os impactos logísticos já atingem diretamente o abastecimento nacional. Caminhões permanecem retidos em rodovias e a estatal petrolífera YPFB informou que bloqueios em sua planta de Senkata e em outras estradas forçaram a suspensão de envios para áreas afetadas.

A crise econômica no centro do conflito

O governo de Rodrigo Paz assumiu o poder em novembro após quase duas décadas de governos de esquerda. Desde então, tenta administrar uma economia em forte deterioração.

O presidente implementou medidas de austeridade, buscou reduzir gastos públicos e tentou diminuir subsídios aos combustíveis com o objetivo de estabilizar as contas nacionais. Paralelamente, promoveu um aumento de 20% no salário mínimo e ampliou alguns benefícios sociais.

As medidas, contudo, não conseguiram conter a insatisfação popular.

Segundo o economista Gonzalo Chavez, simpático ao governo, a Bolívia enfrenta “a pior crise econômica de uma geração”. Para ele, o país está preso entre “o esgotamento de um modelo econômico conduzido pelo Estado” e “a ausência de uma alternativa viável”.

Analistas também apontam que choques globais no setor energético, associados à guerra no Irã, vêm agravando os custos domésticos em um país cada vez mais dependente da importação de combustíveis.

O governo acusa aliados de Evo Morales

As autoridades bolivianas afirmam que aliados do ex-presidente Evo Morales estariam incentivando os bloqueios e alimentando a radicalização das mobilizações.

O porta-voz do governo, Jose Luis Galvez, acusou “grupos violentos” de estarem minando a democracia. O chanceler Fernando Aramayo afirmou que irá denunciar um “atentado contra a democracia” junto à Organização dos Estados Americanos (OEA), e solicitará o envio de uma missão internacional para acompanhar a situação.

Ao mesmo tempo, a Central Operária Boliviana (COB) e setores ligados ao “evismo” passaram a exigir explicitamente a renúncia de Rodrigo Paz. Segundo relatos publicados na imprensa boliviana, parte desses grupos abandonou antigas pautas econômicas para concentrar-se exclusivamente na saída do presidente.

Entre os principais nomes envolvidos está Mario Argollo, secretário executivo da COB, contra quem a Fiscalía emitiu ordem de prisão por acusações que incluem instigação pública ao crime, associação criminosa, terrorismo e atentados contra serviços públicos e meios de transporte. A Fiscalía é um orgão equivalente ao Ministério Público no Brasil.

Vice-presidente rompe parcialmente com o governo

O sindicalista Argollo se tornou um elemento central na crise após receber do vice-presidente Edmand Lara um pedido para que seja suspensa a ordem de prisão contra os manifestantes. Um dos elementos mais explosivos da crise é a crescente distância entre o presidente Rodrigo Paz e seu vice.

Segundo o vice-presidente, os dirigentes da COB estariam reivindicando respostas para a crise econômica e não privilégios políticos. Ele denunciou perseguição contra outros líderes sociais e acusou o Executivo de utilizar o aparato estatal para “disciplinar quem pensa diferente”.

Lara também pediu prioridade ao diálogo e alertou para os riscos de aprofundamento da tensão política.

A posição do vice-presidente abriu espaço para especulações ainda mais profundas sobre uma possível ruptura institucional.

Deputado aliado de Lara fala em substituição presidencial

O cenário tornou-se ainda mais delicado após declarações do deputado Brayan Casas, do Partido Democrata Cristão (PDC), aliado político de Edmand Lara.

Casas pediu publicamente a renúncia de Rodrigo Paz e afirmou que o vice-presidente estaria “preparado” para assumir o comando do país.

“O cargo de presidente ficou grande para ele e os resultados se veem agora”, declarou.

O deputado afirmou ainda que os cidadãos que votaram em Paz teriam “todo o direito” de promover sua destituição.

Além disso, acusou o governo de governar em favor de “milionários” e atribuiu parte da revolta social ao favorecimento de setores econômicos privilegiados.

As declarações ampliaram a percepção de que a crise boliviana já ultrapassa o terreno econômico e social, assumindo dimensões diretamente institucionais.

Estados Unidos e Europa entram em cena

O conflito boliviano também passou a mobilizar atores internacionais.

O subsecretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, afirmou ter conversado com Rodrigo Paz e declarou preocupação com a situação.

“Não haja dúvida: aqueles que perderam esmagadoramente nas urnas no ano passado estão tentando derrubar o presidente Paz”, escreveu Landau.

A União Europeia e cinco embaixadas europeias divulgaram nota conjunta defendendo diálogo e manifestações pacíficas.

As manifestações internacionais indicam que a crise boliviana já é observada externamente como um possível foco de instabilidade regional.

Um país em impasse

O que emerge na Bolívia é um quadro de múltiplas crises simultâneas: econômica, de abastecimento, de legitimidade política, além de pressão social crescente, radicalização dos conflitos de rua e tensões dentro do próprio governo.

Está difícil para o presidente Paz contornar a situação. Ele insiste na necessidade de estabilizar as contas públicas, ao passo que setores mobilizados acusam o Executivo de responder à crise com repressão e intimidação. Em meio a tudo isso, a combinação entre bloqueios prolongados, escassez de combustível, fechamento de serviços e disputa institucional levou o país a um impasse, que deverá durar pelo menos mais alguns dias.

Com bancos operando parcialmente, corredores humanitários sendo planejados e pedidos públicos de renúncia presidencial surgindo inclusive dentro da esfera política ligada ao governo, a Bolívia entra em uma fase de elevada incerteza, sem sinais claros de solução imediata. Os segmentos populares, por sua vez, aproveitam as fraquezas do governo para combater as medidas de austeridade e obter ganhos políticos em favor dos trabalhadores.




Ícone de crédito Mineiros são uma das categorias que estão à frente do movimento contra o presidente Paz. Foto: Claudia Morales/Reuters

Entenda a crise boliviana que pode levar à renúncia do presidente e é uma nova preocupação para os Estados Unidos


Marcha popular, bloqueios nas estradas e greve geral estão agitando a Bolívia.






A Bolívia atravessa uma das mais graves crises políticas e sociais dos últimos anos. Em meio a protestos crescentes, bloqueios de estradas, paralisações urbanas e uma escalada do confronto entre governo e setores mobilizados, o presidente Rodrigo Paz enfrenta uma deterioração acelerada de sua capacidade de governar. O cenário já provoca impactos econômicos concretos, afeta o abastecimento de cidades estratégicas e expõe fissuras dentro do próprio núcleo institucional do Estado boliviano, que está sob condição quase insurrecional.

Nas últimas semanas, manifestações lideradas por sindicatos, mineiros, trabalhadores do transporte e grupos rurais ampliaram a pressão sobre o governo. O estopim imediato é a crise econômica que atravessa o país (marcada pelo aumento do custo de vida, escassez de dólares e dificuldades energéticas), mas o conflito assumiu rapidamente contornos mais profundos. Em vários setores mobilizados, as reivindicações econômicas deram lugar a uma exigência política direta: a renúncia do presidente.

A tensão chegou a um novo patamar quando bancos fecharam temporariamente agências em La Paz diante do agravamento da situação nas ruas. Ao mesmo tempo, diplomatas internacionais passaram a emitir apelos públicos por diálogo e contenção.

Rodrigo Paz: da vitória eleitoral à crise que pode ser definitiva

A ascensão de Paz ocorreu em meio ao desgaste interno do Movimento ao Socialismo (MAS), marcado pela disputa entre Luis Arce e Evo Morales e por uma grave crise econômica, com recessão e desabastecimento de combustíveis. O voto popular contra o MAS acabou migrando para a chapa de direita de Rodrigo Paz e Edmand Lara, impulsionada pela promessa de renovação do Estado Plurinacional e pelo discurso anticorrupção do então candidato a vice-presidente.

No entanto, segundo críticos do governo, Paz rompeu rapidamente com as expectativas populares. Seu gabinete foi acusado de privilegiar elites tradicionais, enquanto medidas econômicas de austeridade agravaram a tensão social. O aumento de 86% na gasolina e de 163% no diesel, além da flexibilização sobre recursos naturais e mudanças na legislação agrária, intensificaram o descontentamento.

Esse cenário, aliado a perseguições perpetradas contra Evo Morales (que recebeu novas ordens de prisão, mas se recusa a se entregar), uma marcha se formou, circulando por milhares de quilômetros e chegando finalmente à capital do país, La Paz. O governo respondeu inicialmente acusando Evo de conspiração, depois tentou negociações e, por fim, passou à repressão, com relatos de mortos durante confrontos.

Bancos fechados e sensação de cerco em La Paz

Na capital boliviana, a deterioração do ambiente urbano tornou-se visível ontem (19). Bancos como Banco Nacional de Bolivia, Banco de Credito de Bolivia (BCP), Banco Economico e Banco Union fecharam parcialmente agências e redirecionaram clientes para serviços online e caixas eletrônicos.

Em declaração à Agência Reuters, funcionários de ao menos cinco instituições financeiras disseram que as operações presenciais não seriam retomadas até que os protestos diminuíssem. A associação bancária ASOBAN evitou comentar diretamente as razões dos fechamentos, limitando-se a afirmar que o sistema continuava parcialmente operacional.

Embora o centro de La Paz tenha permanecido relativamente calmo em determinados momentos, a presença policial foi reforçada, especialmente nos arredores da Plaza Murillo, onde se localiza o palácio presidencial. Paralelamente, protestos e greves de transporte foram registrados na vizinha El Alto.

Nas ruas, a sensação entre moradores é de isolamento progressivo da capital. “É difícil estar na cidade de La Paz. É como se estivéssemos cercados”, afirmou a trabalhadora Ana Uria, relatando falta de vegetais e diesel.

A situação já afeta também os serviços de saúde. Em uma clínica da capital, o médico Jorge Hinojosa relatou dificuldades para obter medicamentos e suprimentos devido aos bloqueios. Uma paciente ferida nos confrontos foi atendida com um improvisado suporte de papelão diante da ausência de equipamentos adequados.

O mapa dos bloqueios

Segundo a Administradora Boliviana de Carreteras (ABC), havia 45 pontos de bloqueio registrados até a tarde de terça-feira. Desse total, 39 concentravam-se nos departamentos de La Paz, Cochabamba e Oruro.

La Paz liderava o número de interrupções, com 17 pontos que mantinham o cerco às cidades de La Paz e El Alto até a conclusão dessa matéria, no início da noite desta terça-feira.

Cochabamba e Oruro registravam 11 bloqueios cada, afetando rotas estratégicas de conexão interdepartamental. Também foram registrados pontos de interrupção em Potosí, Santa Cruz e Chuquisaca.

A gravidade da situação levou a Polícia Boliviana a anunciar a criação de um “corredor humanitário” para permitir a entrada de alimentos, combustível, medicamentos e oxigênio na capital.

Os impactos logísticos já atingem diretamente o abastecimento nacional. Caminhões permanecem retidos em rodovias e a estatal petrolífera YPFB informou que bloqueios em sua planta de Senkata e em outras estradas forçaram a suspensão de envios para áreas afetadas.

A crise econômica no centro do conflito

O governo de Rodrigo Paz assumiu o poder em novembro após quase duas décadas de governos de esquerda. Desde então, tenta administrar uma economia em forte deterioração.

O presidente implementou medidas de austeridade, buscou reduzir gastos públicos e tentou diminuir subsídios aos combustíveis com o objetivo de estabilizar as contas nacionais. Paralelamente, promoveu um aumento de 20% no salário mínimo e ampliou alguns benefícios sociais.

As medidas, contudo, não conseguiram conter a insatisfação popular.

Segundo o economista Gonzalo Chavez, simpático ao governo, a Bolívia enfrenta “a pior crise econômica de uma geração”. Para ele, o país está preso entre “o esgotamento de um modelo econômico conduzido pelo Estado” e “a ausência de uma alternativa viável”.

Analistas também apontam que choques globais no setor energético, associados à guerra no Irã, vêm agravando os custos domésticos em um país cada vez mais dependente da importação de combustíveis.

O governo acusa aliados de Evo Morales

As autoridades bolivianas afirmam que aliados do ex-presidente Evo Morales estariam incentivando os bloqueios e alimentando a radicalização das mobilizações.

O porta-voz do governo, Jose Luis Galvez, acusou “grupos violentos” de estarem minando a democracia. O chanceler Fernando Aramayo afirmou que irá denunciar um “atentado contra a democracia” junto à Organização dos Estados Americanos (OEA), e solicitará o envio de uma missão internacional para acompanhar a situação.

Ao mesmo tempo, a Central Operária Boliviana (COB) e setores ligados ao “evismo” passaram a exigir explicitamente a renúncia de Rodrigo Paz. Segundo relatos publicados na imprensa boliviana, parte desses grupos abandonou antigas pautas econômicas para concentrar-se exclusivamente na saída do presidente.

Entre os principais nomes envolvidos está Mario Argollo, secretário executivo da COB, contra quem a Fiscalía emitiu ordem de prisão por acusações que incluem instigação pública ao crime, associação criminosa, terrorismo e atentados contra serviços públicos e meios de transporte. A Fiscalía é um orgão equivalente ao Ministério Público no Brasil.

Vice-presidente rompe parcialmente com o governo

O sindicalista Argollo se tornou um elemento central na crise após receber do vice-presidente Edmand Lara um pedido para que seja suspensa a ordem de prisão contra os manifestantes. Um dos elementos mais explosivos da crise é a crescente distância entre o presidente Rodrigo Paz e seu vice.

Segundo o vice-presidente, os dirigentes da COB estariam reivindicando respostas para a crise econômica e não privilégios políticos. Ele denunciou perseguição contra outros líderes sociais e acusou o Executivo de utilizar o aparato estatal para “disciplinar quem pensa diferente”.

Lara também pediu prioridade ao diálogo e alertou para os riscos de aprofundamento da tensão política.

A posição do vice-presidente abriu espaço para especulações ainda mais profundas sobre uma possível ruptura institucional.

Deputado aliado de Lara fala em substituição presidencial

O cenário tornou-se ainda mais delicado após declarações do deputado Brayan Casas, do Partido Democrata Cristão (PDC), aliado político de Edmand Lara.

Casas pediu publicamente a renúncia de Rodrigo Paz e afirmou que o vice-presidente estaria “preparado” para assumir o comando do país.

“O cargo de presidente ficou grande para ele e os resultados se veem agora”, declarou.

O deputado afirmou ainda que os cidadãos que votaram em Paz teriam “todo o direito” de promover sua destituição.

Além disso, acusou o governo de governar em favor de “milionários” e atribuiu parte da revolta social ao favorecimento de setores econômicos privilegiados.

As declarações ampliaram a percepção de que a crise boliviana já ultrapassa o terreno econômico e social, assumindo dimensões diretamente institucionais.

Estados Unidos e Europa entram em cena

O conflito boliviano também passou a mobilizar atores internacionais.

O subsecretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, afirmou ter conversado com Rodrigo Paz e declarou preocupação com a situação.

“Não haja dúvida: aqueles que perderam esmagadoramente nas urnas no ano passado estão tentando derrubar o presidente Paz”, escreveu Landau.

A União Europeia e cinco embaixadas europeias divulgaram nota conjunta defendendo diálogo e manifestações pacíficas.

As manifestações internacionais indicam que a crise boliviana já é observada externamente como um possível foco de instabilidade regional.

Um país em impasse

O que emerge na Bolívia é um quadro de múltiplas crises simultâneas: econômica, de abastecimento, de legitimidade política, além de pressão social crescente, radicalização dos conflitos de rua e tensões dentro do próprio governo.

Está difícil para o presidente Paz contornar a situação. Ele insiste na necessidade de estabilizar as contas públicas, ao passo que setores mobilizados acusam o Executivo de responder à crise com repressão e intimidação. Em meio a tudo isso, a combinação entre bloqueios prolongados, escassez de combustível, fechamento de serviços e disputa institucional levou o país a um impasse, que deverá durar pelo menos mais alguns dias.

Com bancos operando parcialmente, corredores humanitários sendo planejados e pedidos públicos de renúncia presidencial surgindo inclusive dentro da esfera política ligada ao governo, a Bolívia entra em uma fase de elevada incerteza, sem sinais claros de solução imediata. Os segmentos populares, por sua vez, aproveitam as fraquezas do governo para combater as medidas de austeridade e obter ganhos políticos em favor dos trabalhadores.