Nordeste invisível

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Não é novidade pra ninguém que o Nordeste é visto pelo restante do país como sinônimo de atraso, pobreza e ignorância.

Sempre que a região entra em pauta, lá vêm os mesmos estereótipos: fala forçada, erro gramatical e velhas indumentárias no melhor estilo Corisco e Dadá. Tudo isso transformado em espetáculo para alimentar a xenofobia alheia. 

As razões para tanto são múltiplas. Na verdade, o assunto já foi muito bem tratado por estudiosos do naipe de Durval Muniz. E recentemente Octávio Santiago também abordou o tema no seu livro “Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste”.

Dentre as diversas causas que sustentam essa discriminação regional, talvez a que mais incomoda seja aquela nascida das ações dos próprios nordestinos, que reforçam rótulos para alcançar algum destaque pessoal.

Comediantes, atores e políticos, por exemplo, adoram subir os degraus da fama escorados no visual antigo do nordestino, quase folclórico, como se a região tivesse parado no tempo de “Os sertões”.

Não por acaso, lideranças locais parecem mais confortáveis encenando um Nordeste exótico de chapéu de couro, do que mostrando um Nordeste complexo, urbano e contemporâneo, ainda que aquele tipo de apetrecho já não seja mais visto na cabeça da população das grandes cidades desde os anos cinquenta.

O nó é que quando símbolos culturais são usados por pessoas públicas como figurino permanente, sem contexto, eles deixam de afirmar orgulho e passam a reforçar padrões arcaicos, servindo exatamente para nutrir a imagem que historicamente foi usada para diminuir a região e sua população.

Enquanto isso, o Nordeste real, aquele que produz ciência, tecnologia, arte contemporânea e conhecimento de ponta, segue praticamente invisível.

As universidades da região estão entre as que mais produzem pesquisa no país, com reconhecimento internacional.

Há inovação, pensamento crítico e transformação social acontecendo todos os dias. Mas isso raramente vira símbolo. Não rende imagem fácil nem personagem pronto.

Não é que para valorizar o Nordeste seja preciso negar sua história e apagar suas raízes culturais. Mas é fundamental recusar a ideia de que elas nos limitam.

É necessário entender que a identidade do nordestino não precisa ser reduzida a meia dúzia de símbolos fáceis de consumir.

O desafio, então, é refutar os Lampiões e as Marias Bonitas de ocasião, e mostrar que aqui os avanços do desenvolvimento estão presentes e visíveis na cultura, na educação e na ciência.


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Nordeste invisível

Não é novidade pra ninguém que o Nordeste é visto pelo restante do país como sinônimo de atraso, pobreza e ignorância.

Sempre que a região entra em pauta, lá vêm os mesmos estereótipos: fala forçada, erro gramatical e velhas indumentárias no melhor estilo Corisco e Dadá. Tudo isso transformado em espetáculo para alimentar a xenofobia alheia. 

As razões para tanto são múltiplas. Na verdade, o assunto já foi muito bem tratado por estudiosos do naipe de Durval Muniz. E recentemente Octávio Santiago também abordou o tema no seu livro “Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste”.

Dentre as diversas causas que sustentam essa discriminação regional, talvez a que mais incomoda seja aquela nascida das ações dos próprios nordestinos, que reforçam rótulos para alcançar algum destaque pessoal.

Comediantes, atores e políticos, por exemplo, adoram subir os degraus da fama escorados no visual antigo do nordestino, quase folclórico, como se a região tivesse parado no tempo de “Os sertões”.

Não por acaso, lideranças locais parecem mais confortáveis encenando um Nordeste exótico de chapéu de couro, do que mostrando um Nordeste complexo, urbano e contemporâneo, ainda que aquele tipo de apetrecho já não seja mais visto na cabeça da população das grandes cidades desde os anos cinquenta.

O nó é que quando símbolos culturais são usados por pessoas públicas como figurino permanente, sem contexto, eles deixam de afirmar orgulho e passam a reforçar padrões arcaicos, servindo exatamente para nutrir a imagem que historicamente foi usada para diminuir a região e sua população.

Enquanto isso, o Nordeste real, aquele que produz ciência, tecnologia, arte contemporânea e conhecimento de ponta, segue praticamente invisível.

As universidades da região estão entre as que mais produzem pesquisa no país, com reconhecimento internacional.

Há inovação, pensamento crítico e transformação social acontecendo todos os dias. Mas isso raramente vira símbolo. Não rende imagem fácil nem personagem pronto.

Não é que para valorizar o Nordeste seja preciso negar sua história e apagar suas raízes culturais. Mas é fundamental recusar a ideia de que elas nos limitam.

É necessário entender que a identidade do nordestino não precisa ser reduzida a meia dúzia de símbolos fáceis de consumir.

O desafio, então, é refutar os Lampiões e as Marias Bonitas de ocasião, e mostrar que aqui os avanços do desenvolvimento estão presentes e visíveis na cultura, na educação e na ciência.



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