Grupos que estimulam a tortura e a morte de cães e gatos vêm se multiplicando em ambientes digitais acessíveis a qualquer usuário, incluindo crianças e adolescentes. Monitoradas pela Polícia Civil de São Paulo, essas comunidades operam principalmente durante a madrugada, quando transmissões ao vivo exibem desafios violentos e competições baseadas no sofrimento animal. O fenômeno, segundo investigadores, não é episódico, mas parte de um ecossistema estruturado, com hierarquias internas, regras próprias e recompensas simbólicas para quem comete atos mais extremos.
A delegada Lisandrea Salvariego, integrante do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), acompanha essas atividades de forma contínua. O grupo surgiu após ataques a escolas em 2023, mas rapidamente revelou um cenário mais amplo de radicalização online. De acordo com a delegada, a violência contra animais se tornou um dos principais mecanismos de afirmação de status nesses espaços, alimentada pela busca por reconhecimento e pela dessensibilização progressiva dos participantes.
Essas comunidades não estão restritas à chamada “deep web”. Pelo contrário, utilizam plataformas populares, aplicativos de jogos e redes sociais amplamente conhecidas. Entre elas, o Discord se destaca por permitir a criação de servidores fechados, com controle interno de acesso, divisão de funções e recursos como compartilhamento de tela, o que facilita a escalada da violência. O ingresso nesses grupos costuma ocorrer por convite, após o aliciamento em jogos ou vídeos curtos publicados em outras redes.
Especialistas alertam que a exposição constante a conteúdos violentos reduz a capacidade de empatia, sobretudo em jovens. A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, afirma que o consumo repetido desse material cria um processo gradual: primeiro, a indiferença; depois, a participação ativa. Para ela, a combinação de acesso irrestrito à internet e ausência de supervisão familiar é um fator central para o avanço desses crimes.
A atuação das plataformas digitais também é alvo de críticas. Segundo a polícia, a cooperação com autoridades é limitada e lenta, dificultando intervenções emergenciais. Embora empresas afirmem adotar políticas de tolerância zero e equipes dedicadas à moderação, investigadores apontam lacunas na fiscalização de comunidades fechadas e na preservação de dados para investigações.
O problema é global. Investigações internacionais identificaram redes que compartilham e até comercializam vídeos de maus-tratos a animais, envolvendo usuários de diferentes países. No Brasil, até o momento, não há indícios de lucro direto, mas o impacto social é significativo. O Noad já resgatou centenas de adolescentes de ambientes virtuais de automutilação, além de milhares de animais, e realizou prisões e internações.
Para Salvariego, medidas simples podem reduzir drasticamente esses crimes, como limitar o uso de celulares durante a noite. Ainda assim, ela reconhece o alto custo emocional do trabalho e as ameaças sofridas. “Estamos lidando com os efeitos de uma geração exposta precocemente à violência”, afirma. “Sem enfrentamento coletivo, esse ciclo tende a se aprofundar.”







Deixe um comentário