Por Ananda Miranda, para a Tribuna do Norte
Ele não tem nome no letreiro, nem foto estampada em cartaz ou música nas paradas de sucesso, mas o som suave do saxofone se destaca no barulho do trânsito de Natal. Quando o sinal fica vermelho entre buzinas e engarrafamento, o sax do artista de rua, Victor Vendruscollo Jr, tem oferecido alívio em meio ao estresse do movimento urbano.
Quando o relógio marca 9h, as esquinas próximas ao cruzamento da Nascimento de Castro e à Salgado Filho se transformam em palco. Conhecido por quem passa, anônimo para quem não para, o saxofonista encontrou nas ruas a sua fonte de renda e um motivo para seguir tocando.
A música tem o poder de trazer memórias e, frequentemente, o artista observa as pessoas se emocionarem enquanto aguardam o sinal ficar verde. “Já aconteceu que a mulher começou a chorar, porque é a música da morte do pai dela. Outro porque lembra de um tio. Tem muita história”, revela o artista Victor Vendruscollo Jr sobre situações do sinaleiro.
Alguns dizem que toda cidade tem uma trilha sonora única. Em Natal, o saxofonista de rua escolhe entre um repertório variado de músicas, tocando diferentes estilos para se conectar com quem passa durante 45 segundos.
“Vejo quem tá nos dois primeiros carros, que são as pessoas que obrigatoriamente vão ter que me ver, porque estão olhando pra frente. E aí vejo se são mais velhos, novos, adolescentes, senhoras e a partir disso penso na música que a pessoa deve gostar”, disse.
Natural do Rio Grande do Sul, Victor Vendruscollo Jr, de 57 anos, chegou ao Rio Grande do Norte em janeiro de 2012 para trabalhar como palhaço no Circo Grock com a então esposa. Após o divórcio, ele optou por deixar a carreira de palhaço em segundo plano, dedicando mais tempo como músico.
O artista mora em Muriú e na maioria dos dias viaja por 40 minutos de moto para os sinaleiros natalenses.
O horário de trabalho varia, alguns dias trabalha 5h, outros, o horário de trabalho chega a 12h. “O melhor dia para trabalhar é no domingo, porque as pessoas estão passeando. Eles não estão trabalhando na rua com seus carros. Não estão apressados, tendo que pegar a criança na escola”, acrescenta o artista.
Apaixonado pela praia de Muriú, ele descreve seu lar como um lugar onde encontra descanso após o agito do dia a dia. De acordo com o artista, viver em um local como esse é um alívio após a correria e o barulho de Natal, especialmente após passar o dia trabalhando nas ruas.
Sua história com a música de rua na capital potiguar começou há seis anos, junto a amigos malabaristas que ele conheceu pela cidade. “Eles eram malabaristas, vinham do Rio de Janeiro, de bicicleta. E nós trabalhamos com a arte do circo também, da palhaçaria e a gente atuava como palhaço, contador de histórias”, lembra.
A primeira experiência de Victor nas ruas aconteceu quase por acaso: sem dinheiro para viajar para um encontro de malabaristas em Fortaleza, ele decidiu tocar no farol, enquanto os amigos faziam malabares. “Pior de tudo é não tentar, né? Aí começou”, conta.
Ele já trabalhou no ramo imobiliário, foi executivo de vendas e motorista por aplicativo.
Com a chegada da pandemia, Victor deixou as ruas por um período. “Eu consegui comprar um carro, comecei a trabalhar de Uber. Aí passei um ano e pouco de Uber, até que um dia o carro quebrou, eu tava sem grana”, lembra. Ele conta que precisava trocar uma peça que custava cerca de R$500,00 e não tinha como pagar. Foi então que decidiu voltar ao farol.
O retorno, segundo ele, foi surpreendente. “Quando eu voltei, cara, naquele dia eu ganhei mais do que um dia inteiro trabalhando sentado no carro, né? Sentado no carro, aturando passageiro chato, aturando o trânsito, estressando, acordando cedo, nos perigos”.
Atualmente, além de continuar no farol, ele trabalha como ator em simulações de atendimento médico para alunos de medicina.
Desde então, Victor transformou a música de rua em rotina e sustento. “Vamos botar que 70% do meu dinheiro ainda vem do farol. Tem meses que 100%. E é minha paixão”, explica.
A música ajudou a superar o vício
O uso de drogas, para muitos, começa como uma tentativa de encontrar prazer ou escapar temporariamente de dificuldades e medos. Victor Vendruscollo Jr. passou por essa experiência e não hesita em afirmar que aquele foi o pior período de sua vida.
Ele venceu o vício pelas drogas e alcoolismo há cinco anos: “Não adianta só tomar remédio, rezar ou esperar milagres. O primeiro passo é querer mudar. A droga é uma fuga, um prazer momentâneo, mas não resolve o que está por trás”, afirma.
Segundo ele, ter a música como profissão substitui os falsos prazeres oferecidos pelo álcool e droga: “me ajudou no sentido de ter que estar sóbrio para cumprir os compromissos. Também me realiza no sentido de me preencher, porque a droga nada mais é do que a procura de um prazer”.
Para ele, abrir mão de hábitos como sair para festas ou consumir álcool, algo que sempre fez parte de sua vida, foi uma decisão difícil. “Eu adoro cerveja, sempre fui cervejeiro, mas decidi que essas coisas não faziam mais sentido para mim”, explica.
A sobriedade, segundo Victor, não é apenas sobre evitar as tentações, mas também sobre ter clareza e se sentir realizado.
Ele aponta que o tempo de recuperação trouxe muitas conquistas: a compra de um terreno, a construção de uma casa e a reconquista da confiança dos filhos.
Vendruscollo aprendeu a tocar saxofone durante um episódio de vício mais antigo. Aos 23 anos, após uma temporada mochilando pela Europa, ele se viu em uma situação difícil ao retornar ao Brasil. “Eu usava pouca droga na época, mas foi o suficiente para que ela (namorada) denunciasse para os meus pais”, contou.
Com recursos financeiros e uma empresa de sucesso no Sul, a família de Victor decidiu interná-lo em uma clínica de reabilitação.
“Fiquei internado por quinze dias. Lá, meu psiquiatra tocava flauta transversal e me perguntou o que eu achava da música”, lembra. Esse foi o momento em que a ideia de aprender a tocar um instrumento despertou em Victor. “Sempre quis tocar saxofone”, afirmou.
Apesar da vontade de aprender, foi necessário mais tempo até que ele realmente começasse a tocar. “Eu ganhei um saxofone da minha família, mas demorou quase 15 anos para eu realmente começar a tocar. Eu estava focado no meu trabalho e na empresa do meu pai”, revela. Foi nesse intervalo que Victor passou a se dedicar à música, um interesse que acabaria se tornando sua principal fonte de renda.
Recepção do público nas ruas é positiva
Com o tempo, o saxofonista passou a ver sua profissão nas ruas como uma forma de conforto para as pessoas. Segundo Victor, cerca de 90% dos motoristas que passam pelo farol ficam felizes, surpresos e até relaxados com a música, que oferece uma breve pausa no caos do trânsito.
Além de tocar no farol, Victor também se apresenta em eventos privados, como casamentos e aniversários.
Embora a música seja sua grande paixão, ele não nega que o aspecto financeiro também seja um motivador importante. No entanto, sua recompensa é o prazer de tocar e interagir com o público. “Eu gosto muito de trocar ideia. Então, todas as pessoas que passam aqui, eu sempre largo uma piadinha, pergunto qual é a música que gosta”, expressa, enquanto sorri.
Victor Vendruscollo Jr. é uma figura querida na vizinhança, conhecido tanto pelos motoristas de ônibus quanto pelos moradores da região. Ele recebe com frequência água, lanches e até conversas amigáveis enquanto espera o sinal fechar.
Como artista de rua, ele também enfrenta desrespeitos e desafios em sua rotina. Para ele, a experiência de tocar no farol não é apenas sobre o prazer de se apresentar, mas também sobre lidar com a indiferença de algumas pessoas: “Muitas pessoas abrem o vidro e me filmam, mas não têm a educação de dar um sorriso ou um simples ‘obrigado’. Isso é falta de respeito”, desabafa.
No trabalho diário, Victor tenta criar pequenas conexões com quem passa pelo cruzamento. “Se é uma mulher toda de rosa, já toca uma Pantera Cor-de-Rosa; se ela tá com uma blusa de tigresa, já toca uma Tigresa de Unhas Negras. Entendeu? Eu procuro sempre fazer a pessoa rir”, exemplifica.
Nem sempre funciona. Ele explica que o humor do trânsito interfere diretamente na reação das pessoas. “Às vezes a pessoa está muito irritada, está muito braba, nem olha pra mim, às vezes fica olhando para o celular.”
Victor defende que os trabalhadores de rua estão ali, não como pedintes, mas como profissionais que estão lutando para ganhar o seu sustento: “Quando você vê um artista, quando você vê alguém vendendo alguma coisa, não tenha pena dessa pessoa. Tenha consideração, orgulho, respeito por essa pessoa, porque ela está ali trabalhando.”
Nem sempre a contribuição financeira é a única forma de reconhecimento. “Não tenha vergonha de colaborar com 10 centavos, 15 centavos. Se não tiver, pelo menos colabore com um sorriso. Se quiser bater palma, bate. Mas não desdenha”, defende.
Clique aqui para ver um vídeo de Victor Vendruscollo Jr.em exibição.







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