O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento para apurar possíveis conexões entre o Brasil e a rede de exploração sexual atribuída ao financista norte-americano Jeffrey Epstein. A investigação ganhou novo impulso após a divulgação, nos Estados Unidos, de milhões de documentos relacionados ao caso, alguns dos quais mencionam cidadãos brasileiros.
No Rio Grande do Norte, uma denúncia levou o caso à análise da Unidade Nacional de Enfrentamento do Tráfico Internacional de Pessoas e do Contrabando de Migrantes (UNTC), órgão do MPF responsável por centralizar investigações de alta complexidade nessa área. Segundo o Ministério Público, o apuratório tramita sob sigilo, em razão da sensibilidade dos fatos e da necessidade de preservar eventuais vítimas.
A apuração teve início após comunicação interna do procurador-chefe no estado, relatando informações sobre o possível aliciamento e envio de uma mulher residente na região de Natal para os Estados Unidos, onde ela teria sido apresentada a Epstein. Os registros analisados incluem trocas de mensagens datadas de 2011. Embora não confirmem a ocorrência de crime nem detalhem a idade da mulher citada, os documentos indicam tratativas para viabilizar a viagem, incluindo orientações sobre emissão de passaporte e organização do deslocamento internacional.
As mensagens também revelam que Epstein teria solicitado fotografias da jovem em trajes de banho e lingerie, após receber imagens encaminhadas por uma brasileira que mantinha contato frequente com ele. Essa mulher, segundo reportagens baseadas nos arquivos divulgados, demonstrava proximidade e dependência financeira do empresário, pedindo recursos para despesas pessoais e procedimentos estéticos entre 2009 e 2013. Em paralelo, ela teria apresentado outras brasileiras ao financista.
Em uma das conversas, a intermediadora descreve a jovem de Natal como alguém sem experiência internacional, que não falava inglês e vinha de origem simples, sugerindo que viajassem no mesmo voo para facilitar a logística. Mesmo após reconhecer que a ajuda poderia ser “mal interpretada”, Epstein manteve interesse, enquanto a brasileira sugeria que o encontro ocorresse em Paris, reforçando que a jovem seria do “tipo” dele.
O nome de Natal também aparece em outro contexto nos documentos: o agente de modelos Jean-Luc Brunel, apontado como colaborador de Epstein, mencionou ter estado na cidade em 2010. Brunel foi posteriormente investigado na França por acusações de violência sexual contra adolescentes e morreu na prisão em 2022, negando as acusações até o fim.
O caso Epstein se arrasta há mais de uma década na Justiça americana. As primeiras denúncias formais surgiram em 2005, na Flórida, envolvendo abuso sexual de menores. Em 2008, Epstein firmou um acordo judicial controverso, cumprindo 13 meses de detenção por exploração de menores. Anos depois, em 2019, foi novamente preso sob acusações federais de tráfico sexual de adolescentes entre 2002 e 2005. Segundo promotores, ele pagava jovens para atos sexuais e incentivava que recrutassem outras garotas.
Autoridades norte-americanas afirmam que mais de 250 meninas podem ter sido vítimas do esquema. Epstein foi encontrado morto em sua cela, em agosto de 2019. A autópsia concluiu suicídio. Com sua morte, as acusações criminais foram formalmente encerradas, mas investigações sobre possíveis cúmplices e facilitadores continuam.
No Brasil, o MPF afirma acompanhar atentamente qualquer elemento que envolva cidadãos brasileiros ou fatos ocorridos em território nacional. A apuração em curso busca esclarecer se houve prática de tráfico internacional de pessoas ou outros crimes correlatos.






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