Em 2026, além do Brasil, quatro países da América Latina – Colômbia, Costa Rica, Peru e Haiti – vão eleger novos presidentes em um cenário marcado por forte polarização política.
Brasil e Colômbia, duas das maiores democracias da região, devem definir o futuro da esquerda no continente, hoje à frente de ambos os governos. Uma questão que ronda as eleições é até que ponto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, poderá influenciar os resultados. Em 2025, Trump demonstrou disposição de usar o peso do seu cargo e do Tesouro americano para apoiar candidatos de direita na Argentina e em Honduras, alertando que os Estados Unidos cortariam ajuda financeira caso suas preferências fossem derrotadas. Nos dois países, assim como no Equador, candidatos apoiados por Trump saíram vitoriosos. Segundo Cynthia Arnson, especialista em América Latina da Universidade Johns Hopkins, “em nível sem precedentes desde o final da Guerra Fria, o governo Trump e o próprio presidente colocaram seu dedo na balança para influenciar resultados eleitorais e processos políticos da região”.
As eleições na Costa Rica abrem a temporada em 1° de fevereiro, com votação para presidente, dois vice-presidentes e 57 parlamentares. Caso nenhum candidato presidencial atinja 40% dos votos, haverá segundo turno em 5 de abril. No Peru, eleições presidenciais e legislativas estão previstas para 2 de abril, com possível segundo turno em 7 de junho, diante de uma fragmentação política histórica. Ao menos 34 candidatos disputam a presidência, incluindo a direitista Keiko Fujimori, pela quarta vez, e o prefeito de Lima Rafael López Aliaga, declarado simpatizante de Trump. Outros candidatos incluem um comediante e um ex-goleiro de futebol, reforçando a imprevisibilidade do pleito.
Na Colômbia, o processo eleitoral será extenso. Eleições legislativas e consultas partidárias ocorrem em 8 de março, o primeiro turno presidencial em 31 de maio e o segundo turno, se necessário, em 21 de junho. Dois blocos principais disputam o poder: um vinculado ao governo de esquerda de Gustavo Petro, com Iván Cepeda, Roy Barreras e Camilo Romero como pré-candidatos, e outro de oposição de direita, incluindo Mauricio Cárdenas, Vicky Dávila e Paloma Valencia. Outros candidatos podem surgir, como o centrista Sergio Fajardo e a ex-prefeita progressista Claudia López. Petro, impedido de concorrer à reeleição, mantém cerca de um terço do apoio popular e poderá influenciar a escolha do sucessor, sobretudo por iniciativas como a coleta de assinaturas para uma assembleia nacional constituinte.
O Haiti realiza sua primeira eleição em quase uma década, marcada por crise humanitária e violência de gangues. O primeiro turno está previsto para 30 de agosto, com segundo turno em 6 de dezembro, dependendo da segurança e recursos financeiros disponíveis. No Brasil, a eleição geral ocorrerá em 4 de outubro, com possível segundo turno em 25 de outubro. O cenário está profundamente polarizado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva buscará a reeleição em posição de vantagem frente a uma direita dividida, enfraquecida pela condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Bolsonaro indicou o filho Flávio como pré-candidato, mas a direita também inclui governadores como Tarcísio de Freitas, de São Paulo, Ratinho Júnior, do Paraná, e Romeu Zema, de Minas Gerais. Pesquisas indicam que essa divisão poderia favorecer Lula, que jamais havia vencido no primeiro turno em eleições anteriores.
A esquerda latino-americana enfrenta dois desafios centrais: manter o apoio nos países em que governa e resistir à influência externa. No Chile, por exemplo, a vitória do ultradireitista José Antonio Kast sobre Gabriel Boric, de esquerda, demonstra o fortalecimento conservador na região. Em 2025, um dos fatores que beneficiou Lula foi o embate com Donald Trump. O presidente americano impôs sanções e alíquotas ao Brasil, buscando pressionar o país durante o julgamento de Bolsonaro. Lula respondeu destacando a soberania do país, reforçando sua imagem de defensor dos interesses nacionais. O confronto acabou aproximando os dois líderes, com os EUA reduzindo as tarifas sobre produtos brasileiros. Maurício Santoro, cientista político, aponta que o Brasil se tornou um “paradoxo”, em que a interferência de Trump acabou favorecendo um governo de esquerda.
Na Colômbia, Trump também pode tentar influenciar as eleições. Os EUA impuseram sanções a Gustavo Petro, alegando falta de colaboração na luta contra o narcotráfico, acusação negada pelo presidente colombiano. A relação com Washington é importante para o eleitorado: quatro em cada cinco colombianos consideram essencial que seu candidato mantenha boas relações com os EUA. Entretanto, Arnson alerta que a interferência de Trump poderia gerar reação adversa, como ocorreu no Brasil.
O ano eleitoral latino-americano de 2026 será decisivo para o futuro político da região. Brasil e Colômbia concentram as atenções, com eleições que podem consolidar ou enfraquecer a esquerda, enquanto Costa Rica, Peru e Haiti enfrentam processos complexos e imprevisíveis. A influência externa, especialmente de Trump, e os desafios internos, como fragmentação partidária e polarização, prometem tornar este ciclo eleitoral um dos mais intensos das últimas décadas.







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