É preciso achar bonito ser feio.



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Olá, queridos! Como vão?

Acredito que vocês que me acompanham aqui nessa coluna já há algum tempo, com certeza entenderam, ao ler o título, que não estou falando de “feio” ou “bonito” relacionado a estética física. Afinal, a frase “o que importa é a beleza interior” combina muito mais com o que discutimos aqui.

Aliás, essa frase é um ótimo gancho para começarmos nossa conversa do texto de hoje. A ideia da beleza interior. A ideia da beleza de qualquer forma que a gente queira aplicar. Aprendemos desde cedo a olhar ao nosso redor e procurar a beleza.

“Ai, que linda ela ficou com esse vestido!”

“Nossa, filho, que lindo seu desenho!”

“Que linda essa paisagem!”

“… essa roupa…”

“… essa obra de arte…”

Desde sempre e em tudo buscamos beleza. Em nós, no nosso dia a dia, na arte. Aprendemos a não só buscar, mas a valorizar a beleza.

(Qual o problema dela? Ela quer que a gente ache isso errado?)

Não! Não quero demonizar a beleza. Eu também gosto do que é belo, em todos os aspectos que falei e também outros mais que sequer listei aqui. E eu seria muito hipócrita em querer fazer da beleza um ideal ruim sendo que eu mesma valorizo muito o que tenho de belo em mim.

Quero falar sobre como encaramos beleza porque fazemos isso de uma forma incompleta. Valorizamos apenas a beleza. Buscamos e admiramos a beleza em detrimento da feiura. Como se ser feio, ter algo feio, produzir algo feio fosse motivo de esconder do mundo esse traço “desagradável” aos olhos.

Acontece que tudo que existe, existe por algum motivo. Não vou entrar aqui em debate existencial ou espiritual sobre nada. Vamos apenas estabelecer que isso é um fato. Que tudo que existe, surgiu por algum motivo. E qual foi esse motivo? Não sei. Só sei que foi assim. (CHICÓ, 1955).

Imaginem se todas as pessoas no mundo se ativessem apenas ao que consideramos bonito. Se todas as pinturas, por exemplo, seguissem o padrão renascentista, com seus traços delicados, figuras belas e lindas cenas. Imaginem se Pablo Picasso resolvesse esconder seu estilo cubista e a humanidade nunca tivesse ganhado dele a “Guernica”.

Uma pintura totalmente fora dos padrões estéticos considerados belos e que, além disso, retrata uma cena horrorosa. Morte, dor, sofrimento, maldade humana em níveis animalescos. Traços humanamente desproporcionais retratando uma cena terrível resultou em uma das obras mais famosas de um dos pintores mais aclamados de que temos notícia. A emoção que sai daquela tela, mesmo com tanta “feiura” é a prova de como a arte consegue mexer com a gente, independentemente de como se apresente.

Picasso deixou sair de dentro dele todo aquele sentimento horrível que estava sentindo por conta do ataque às pessoas de uma pequena vila espanhola e transformou em algo impossível de descrever em palavras de tão impactante.

Nós todos temos o “feio” dentro de nós. Já conversamos aqui sobre conseguir enxergar as sombras que temos, inclusive sobre abraçá-las e levar luz para elas. Mas precisamos falar também sobre achar bonito ser feio.

Sabe aquelas partes de nós das quais não nos orgulhamos, aquelas que escondemos por medo de magoar ou chocar alguém, que acreditamos que, se expostas, farão com que as pessoas nos olhem como se fôssemos monstros ou algo do tipo? Pois é, algumas dessas partes precisam ser expostas.

Que fique claro que estou falando de defeitos e não de tendências criminosas, ok? Tudo que faz mal a alguém, seja uma atitude que achamos feia ou bonita, deve ser evitado. Nossa conversa nessa coluna é sobre autoconhecimento e, principalmente, sobre nossa relação com nós mesmos.

Esclarecida essa parte, voltemos.

Carregamos conosco sentimentos e pensamentos que não assumimos, não externamos, porque fomos ensinados que são feios. E, como dito no começo, somos criados para valorizar o que é belo e “exterminar” o resto. Só que esses sentimentos e pensamentos podem muito bem resistir a nossa auto dedetização e permanecer conosco para todo sempre.

E como que se lida com isso? Como que suportamos viver com algo que queremos expulsar de nós, não vai embora e nos obriga a escondê-lo do resto do mundo? Eu vou te dizer como: doentes e aprisionados. Engolimos a seco tudo isso que temos medo de mostrar e aquilo vai se juntando ali no cantinho da garganta e com o passar do tempo só aumenta. Vai descendo para o peito em busca de espaço e quando menos esperamos nos sufoca.

O resultado disso são explosões, rompantes, faniquitos, como muitos gostam de chamar.  Vomitamos uma raiva desgovernada para o mundo sem conseguir controlar, ou saber, quem ou o que ela vai atingir. Quando tudo que precisaríamos ter feito para evitar era, simplesmente, colocar para fora na mesma hora que apareceu. Teria saído como a leveza de um suspiro ao invés da violência de um vômito.

A leveza e a liberdade que se sente quando admitimos nossos sentimentos e pensamentos “ruins”, quando nos assumir assim e pronto, é uma sensação que não tem preço.

Chega de ter medo da reação que pode causar tudo isso que guardamos escondido dentro de nós. Às vezes o nosso “feio”, nem é tão feio assim. Ou não é tão feio para algumas pessoas. Ou até mesmo, assumir nosso “feio” nos faz mais “belos” aos olhos do mundo, porque assim estamos sendo reais, transparentes, verdadeiros, fiéis a nós mesmos.

Eu percebi que estava aprisionando em mim algo que sempre achei que fosse muito feio. Não tão feio para mim, mas que seria recebido assim pela pessoa de quem eu sempre escondi isso. Tinha medo de magoar essa pessoa pelo impacto do que eu guardava. Mas, há pouco tempo, coloquei para fora e, quando fiz isso, percebi que já devia ter feito desde sempre.

Não podemos engolir à força nossos sentimentos para não magoar alguém quando esse aprisionamento está não só magoando, mas adoecendo a gente. Temos medo de magoar quem amamos, mas também temos que pensar que quem nos ama tem que nos amar por inteiro, com nosso “feio” também. É uma via de mão dupla, aliás.

Não precisamos pedir licença para ser quem somos. Não precisamos pedir desculpas por ser quem somos. Somos o belo e o feio juntos. Cada um a ser tratado de sua maneira, mas ambos expostos com orgulho, porque são partes nossas.

Se ainda não nos sentimos à vontade para expor nossa “feiura” interna com todo orgulho e assim na lata, podemos começar aos poucos, colocando-a para fora transformada em outra coisa, com Picasso e sua Guernica.

O que não podemos é continuar aprisionando partes nossas para que o mundo não se assuste com elas. O bonito em se assumir feio é que isso nos aproxima do ser único que somos. E quanto mais nos conhecemos, nos aproximamos e nos orgulhamos desse ser único que tem um motivo para ter nascido assim, mais nos apropriamos de nossa própria vida e mais bela, aos nossos olhos, ela se torna.

Até a próxima!



É preciso achar bonito ser feio.






Olá, queridos! Como vão?

Acredito que vocês que me acompanham aqui nessa coluna já há algum tempo, com certeza entenderam, ao ler o título, que não estou falando de “feio” ou “bonito” relacionado a estética física. Afinal, a frase “o que importa é a beleza interior” combina muito mais com o que discutimos aqui.

Aliás, essa frase é um ótimo gancho para começarmos nossa conversa do texto de hoje. A ideia da beleza interior. A ideia da beleza de qualquer forma que a gente queira aplicar. Aprendemos desde cedo a olhar ao nosso redor e procurar a beleza.

“Ai, que linda ela ficou com esse vestido!”

“Nossa, filho, que lindo seu desenho!”

“Que linda essa paisagem!”

“… essa roupa…”

“… essa obra de arte…”

Desde sempre e em tudo buscamos beleza. Em nós, no nosso dia a dia, na arte. Aprendemos a não só buscar, mas a valorizar a beleza.

(Qual o problema dela? Ela quer que a gente ache isso errado?)

Não! Não quero demonizar a beleza. Eu também gosto do que é belo, em todos os aspectos que falei e também outros mais que sequer listei aqui. E eu seria muito hipócrita em querer fazer da beleza um ideal ruim sendo que eu mesma valorizo muito o que tenho de belo em mim.

Quero falar sobre como encaramos beleza porque fazemos isso de uma forma incompleta. Valorizamos apenas a beleza. Buscamos e admiramos a beleza em detrimento da feiura. Como se ser feio, ter algo feio, produzir algo feio fosse motivo de esconder do mundo esse traço “desagradável” aos olhos.

Acontece que tudo que existe, existe por algum motivo. Não vou entrar aqui em debate existencial ou espiritual sobre nada. Vamos apenas estabelecer que isso é um fato. Que tudo que existe, surgiu por algum motivo. E qual foi esse motivo? Não sei. Só sei que foi assim. (CHICÓ, 1955).

Imaginem se todas as pessoas no mundo se ativessem apenas ao que consideramos bonito. Se todas as pinturas, por exemplo, seguissem o padrão renascentista, com seus traços delicados, figuras belas e lindas cenas. Imaginem se Pablo Picasso resolvesse esconder seu estilo cubista e a humanidade nunca tivesse ganhado dele a “Guernica”.

Uma pintura totalmente fora dos padrões estéticos considerados belos e que, além disso, retrata uma cena horrorosa. Morte, dor, sofrimento, maldade humana em níveis animalescos. Traços humanamente desproporcionais retratando uma cena terrível resultou em uma das obras mais famosas de um dos pintores mais aclamados de que temos notícia. A emoção que sai daquela tela, mesmo com tanta “feiura” é a prova de como a arte consegue mexer com a gente, independentemente de como se apresente.

Picasso deixou sair de dentro dele todo aquele sentimento horrível que estava sentindo por conta do ataque às pessoas de uma pequena vila espanhola e transformou em algo impossível de descrever em palavras de tão impactante.

Nós todos temos o “feio” dentro de nós. Já conversamos aqui sobre conseguir enxergar as sombras que temos, inclusive sobre abraçá-las e levar luz para elas. Mas precisamos falar também sobre achar bonito ser feio.

Sabe aquelas partes de nós das quais não nos orgulhamos, aquelas que escondemos por medo de magoar ou chocar alguém, que acreditamos que, se expostas, farão com que as pessoas nos olhem como se fôssemos monstros ou algo do tipo? Pois é, algumas dessas partes precisam ser expostas.

Que fique claro que estou falando de defeitos e não de tendências criminosas, ok? Tudo que faz mal a alguém, seja uma atitude que achamos feia ou bonita, deve ser evitado. Nossa conversa nessa coluna é sobre autoconhecimento e, principalmente, sobre nossa relação com nós mesmos.

Esclarecida essa parte, voltemos.

Carregamos conosco sentimentos e pensamentos que não assumimos, não externamos, porque fomos ensinados que são feios. E, como dito no começo, somos criados para valorizar o que é belo e “exterminar” o resto. Só que esses sentimentos e pensamentos podem muito bem resistir a nossa auto dedetização e permanecer conosco para todo sempre.

E como que se lida com isso? Como que suportamos viver com algo que queremos expulsar de nós, não vai embora e nos obriga a escondê-lo do resto do mundo? Eu vou te dizer como: doentes e aprisionados. Engolimos a seco tudo isso que temos medo de mostrar e aquilo vai se juntando ali no cantinho da garganta e com o passar do tempo só aumenta. Vai descendo para o peito em busca de espaço e quando menos esperamos nos sufoca.

O resultado disso são explosões, rompantes, faniquitos, como muitos gostam de chamar.  Vomitamos uma raiva desgovernada para o mundo sem conseguir controlar, ou saber, quem ou o que ela vai atingir. Quando tudo que precisaríamos ter feito para evitar era, simplesmente, colocar para fora na mesma hora que apareceu. Teria saído como a leveza de um suspiro ao invés da violência de um vômito.

A leveza e a liberdade que se sente quando admitimos nossos sentimentos e pensamentos “ruins”, quando nos assumir assim e pronto, é uma sensação que não tem preço.

Chega de ter medo da reação que pode causar tudo isso que guardamos escondido dentro de nós. Às vezes o nosso “feio”, nem é tão feio assim. Ou não é tão feio para algumas pessoas. Ou até mesmo, assumir nosso “feio” nos faz mais “belos” aos olhos do mundo, porque assim estamos sendo reais, transparentes, verdadeiros, fiéis a nós mesmos.

Eu percebi que estava aprisionando em mim algo que sempre achei que fosse muito feio. Não tão feio para mim, mas que seria recebido assim pela pessoa de quem eu sempre escondi isso. Tinha medo de magoar essa pessoa pelo impacto do que eu guardava. Mas, há pouco tempo, coloquei para fora e, quando fiz isso, percebi que já devia ter feito desde sempre.

Não podemos engolir à força nossos sentimentos para não magoar alguém quando esse aprisionamento está não só magoando, mas adoecendo a gente. Temos medo de magoar quem amamos, mas também temos que pensar que quem nos ama tem que nos amar por inteiro, com nosso “feio” também. É uma via de mão dupla, aliás.

Não precisamos pedir licença para ser quem somos. Não precisamos pedir desculpas por ser quem somos. Somos o belo e o feio juntos. Cada um a ser tratado de sua maneira, mas ambos expostos com orgulho, porque são partes nossas.

Se ainda não nos sentimos à vontade para expor nossa “feiura” interna com todo orgulho e assim na lata, podemos começar aos poucos, colocando-a para fora transformada em outra coisa, com Picasso e sua Guernica.

O que não podemos é continuar aprisionando partes nossas para que o mundo não se assuste com elas. O bonito em se assumir feio é que isso nos aproxima do ser único que somos. E quanto mais nos conhecemos, nos aproximamos e nos orgulhamos desse ser único que tem um motivo para ter nascido assim, mais nos apropriamos de nossa própria vida e mais bela, aos nossos olhos, ela se torna.

Até a próxima!


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