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Olá, queridos! Como vão?
Dentre os assuntos que já tratamos aqui, a grande maioria deles trouxe um debate, acerca de autoconhecimento, num enfoque mais amplo. Ainda que eu tenha utilizado exemplos particulares meus, o tema tratado era de aplicação geral. Para quem quer que se identificasse. Mas, hoje, peço licença para trazer um tema um tanto pessoal.
(Como assim pede licença? Ela tá se fazendo, né? A coluna é dela! Ela escreve o que bem entender e quem não gosta é só não ler, ué!)
Bom, falando desse tema pessoal. Eu, assim como milhões de brasileiros, também acompanhei as notícias, e o show, da Shakira no último fim de semana. Sim, foi pela tela da televisão. Mas isso não me impediu de curtir cada segundo, especialmente durante as músicas mais antigas, que me fizeram lembrar do comecinho da minha adolescência.
E essa não foi a única época da minha vida da qual essa diva colombiana me fez resgatar memórias. Curiosamente, as músicas mais novas foram as que me fizeram retornar ao passado. Mas não é sobre a minha viagem pelas minhas memórias, embaladas pelas músicas da Shakira, que eu quero falar. É de algo com o qual me identifiquei demais assistindo ao show dela.
Todo mundo sabe da história da separação dela. Todo mundo sabe o motivo. Pelo menos é o que me parece quando vejo a maioria das pessoas comentando sobre o assunto. Falam da traição, da geleia, do relógio. Pouca coisa, eu vi, se falando sobre o quão abusiva era a relação deles.
Uma busca rápida por imagens dos dois juntos, fotos e vídeos, e é possível ver o quanto ele limitava o comportamento dela em público, até a mãe dele a humilhava publicamente. É visível o quanto ela foi se apagando ao longo dos anos. Seu sorriso foi ficando vazio. Seu brilho meio farol baixo.
E aí quando a relação acabou, como num passe de mágica, a luz que ela sempre teve foi reacendendo. Seu brilho, sua força, tudo voltando. Chegou a ganhar 3 Grammys Latinos. E essa dinâmica não aconteceu somente com ela. Basta fazer uma busca rápida, começando por Tina Turner, Rihanna, Billie Eilish, Miley Cyrus e tantas outras.
Não, essa não foi a parte com a qual me identifiquei. Adoraria! Mas, não. Não foi a parte do reconhecimento público do meu trabalho, mas a parte que certa vez foi apontada por estar “empoderada demais”. Sim, eu ouvi isso.
Para quem assistiu ao show, ou acompanhou algo da cantora desde sua separação, com certeza notou no discurso dela um tom “afrontoso”. Repetindo várias e várias vezes sobre como é maravilhoso estar solteira, sobre como é ótimo falar mal do ex e usar seu sucesso para “pisar” na imagem dele.
Antes de qualquer coisa, vou deixar bem claro que acho maravilhoso que ela tenha saído daquela situação como saiu. Se é pra ser tratada como ela foi, ótimo que ela fature muito dinheiro e ganhe muita visibilidade com isso. E se ela quiser falar mal do ex dela, ela tem todo direito. E mais: estar solteira pode ser maravilhoso, sim. Ninguém é mais feliz ou triste por estar só ou em casal. Isso não define ninguém.
O ponto exato que eu quero debater aqui, exatamente onde me identifiquei, é o período nesse pós relação abusiva, depois que a dor já parou de deixar seu mundo girando, quando se está voltando a viver. Nesse momento, há uma necessidade inconsciente de sair gritando para o mudo ouvir que, finalmente, estamos livres. Livres dos abusos, livres do medo, livres da prisão que foi instalada dentro de nossas cabeças.
Passamos um tempo sendo subjugadas, humilhadas, diminuídas. E quando a relação acaba, ainda não nos sentimos totalmente livres. A prisão que foi criada dentro de nossas cabeças não se desfaz tão fácil. É pior que chiclete grudado no cabelo. Exige paciência e muito cuidado para tirar.
Acabamos gritando nossa recém liberdade na ânsia de que esse grito alto ecoe dentro de nós. Nos tornamos “empoderadas demais” porque passamos muito tempo furtadas de nós mesmas e agora precisamos que nosso grito ecoe o mais alto possível para reverberar em tudo ao nosso redor e voltar para nós. A ficha dessa liberdade não cai tão fácil.
A gente canta sobre ser livre e solteira, a gente comemora sobre ser melhor que o ex, mas fazemos isso sorrindo apenas com os lábios. Nossos olhos não acompanham. Eles ainda carregam uma tristeza, uma dor, que ainda está curando. Ainda em processo.
Quando se passa por isso, se reconhece ao ver outra mulher passando pelo mesmo. Não estou aqui (não foi de propósito) tendo nenhuma audácia de presumir o que se passa na cabeça de uma mulher que eu jamais conheci, uma mulher que lucra com performance artística, e pode muito bem continuar nesse discurso apenas na personagem dos palcos. Mas, foi esse sentimento forte que me veio ao assisti-la.
(Então você está dizendo que ela está sendo falsa e tem que parar de falar isso?)
Jamais! Ela, a mulher que está nesse lugar, a mulher que berra sua liberdade até que consiga chegar ao ponto de não precisar mais gritar para se ouvir, essa mulher está sendo sincera com o que sente naquele momento. Às vezes a dor é que fala através de nós e ninguém tem o direito de questionar nosso processo.
Essa é uma das etapas. Assim como não sentir mais necessidade de gritar é uma etapa. Ou então, sussurrar e já sentir que está impondo seus limites. Ou, melhor ainda, se amar tanto ao ponto de nem fazer questão de explicar nada para seu ninguém. Simplesmente viver. Se permitir ser, na leveza que a vida pode ter. E deixar brilhar a essência única que se tem. Deixando livre, dessa vez, a essência.
E aonde eu queria chegar com tudo isso? No título. Somos quem podemos ser. Quando entendemos os processos que passamos na vida, quando temos generosidade de olhar para o outro e enxergar algo que já vivemos, quando sabemos que algo pode destroçar a vida alheia mesmo sem nos afetar, conseguimos nos permitir viver como somos e não cobrar do outro que ele seja o que nós achamos que ele poderia ser.
Nós só somos quem podemos ser. Entender nossos limites, e os do outro. Ter paciência com nosso processo, e respeitar o do outro. Saber pedir ajuda, e estender a mão para o outro. E assim vamos alcançando onde queremos chegar. Assim vamos realizando todos os sonhos que podemos ter.
Até a próxima!





