Os ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel ao Irã, que resultaram na morte do líder supremo aiatolá Ali Khamenei, marcaram uma escalada sem precedentes no Oriente Médio. A ofensiva, seguida por retaliações iranianas contra Israel e bases americanas no Golfo, transformou tensões históricas em guerra aberta, com potencial de repercussões duradouras para a região e a economia mundial.
O presidente Donald Trump e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmaram que o objetivo central da operação é promover uma mudança de regime em Teerã. No entanto, a República Islâmica foi estruturada precisamente para resistir a choques dessa magnitude. Essa é a avaliação de Amin Saikal, professor de Estudos sobre o Oriente Médio da Universidade Nacional da Austrália. A morte de Khamenei representa um golpe simbólico e político, mas não necessariamente fatal. O Irã já perdeu figuras-chave no passado, como o general Qassem Soleimani, morto pelos EUA em 2020, e conseguiu reorganizar sua cadeia de comando sem ruptura institucional.
Antes de morrer, Khamenei teria organizado uma linha de sucessão emergencial. Pela Constituição iraniana, cabe à Assembleia dos Especialistas indicar um novo líder supremo. Entre os nomes cotados estão o chefe do Judiciário, Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i; o chefe de gabinete Ali Asghar Hejazi; e Hassan Khomeini, neto do fundador da República Islâmica. A engrenagem estatal — especialmente o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a milícia Basij — permanece ativa e coesa, sinalizando que o aparato de poder ainda sustenta o regime.
Saikal lembra que Trump e Netanyahu conclamaram a população iraniana, majoritariamente jovem, a se rebelar. Embora o país tenha vivido protestos recentes reprimidos com violência, não há sinais claros de fissuras profundas entre as forças de segurança que permitam uma revolta vitoriosa no curto prazo.
Enquanto isso, o conflito já produz impactos globais. O IRGC anunciou medidas para bloquear o Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial e um quarto do gás natural liquefeito. Mesmo com a promessa americana de manter a rota aberta, qualquer interrupção prolongada pode disparar os preços da energia e afetar cadeias produtivas em todo o planeta.
A guerra também redesenha alianças. China e Rússia condenaram os ataques, enquanto o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu desescalada urgente. As ofensivas interromperam negociações nucleares que estavam em curso com mediação de Omã. Segundo o chanceler omanense, “a paz estava ao alcance” poucos dias antes dos bombardeios.
Ao cruzarem antigas linhas vermelhas, Washington e Jerusalém assumem o risco de um conflito prolongado. Para Trump, a ofensiva reafirma a liderança global americana; para Netanyahu, fortalece a posição de Israel como potência regional. Já para o povo iraniano — e para um mundo já pressionado por crises simultâneas — a perspectiva é de semanas, ou até meses, de instabilidade, violência e incerteza econômica.







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