À primeira vista, o cenário pré-eleitoral no Rio Grande do Norte expõe uma disputa ordinária: grupos tradicionais reorganizam alianças, novos nomes testam viabilidade, a máquina estadual tenta defender seu legado enquanto opositores exploram fadiga administrativa. No entanto, se recusarmos a superfície factual como última instância da verdade política, a questão muda de estatuto. A pergunta que emerge é: o que, exatamente, está em disputa quando se disputa o governo do Rio Grande do Norte?
A resposta trivial mencionaria orçamento, cargos ou programas. Mas na verdade, o que se disputa é uma economia libidinal: quem tem o direito de encarnar um papel que vai além do de gestão, mas também de quem alimenta fantasias, de que seria, por exemplo, capaz de garantir consistência simbólica a uma sociedade atravessada por precariedades estruturais (fiscais, hídricas, infraestruturais, de segurança pública).
O campo governista, orbitando a atual gestão, parte de um trunfo clássico: a materialidade administrativa. Estradas, salários em dia, algumas políticas de segurança cá e programas sociais lá funcionam como aquilo que Freud chamaria de formações de compromisso — respostas possíveis, ainda que parciais, ao mal-estar difuso da população.
Mas aqui emerge o primeiro curto-circuito ideológico. Poderíamos nos perguntar: entregas objetivas bastam para produzir identificação política duradoura? A essa questão, seríamos obrigados a responder com um “não necessariamente”. A política, já sabemos bem, não opera apenas no nível do desempenho, mas da fantasia que estrutura a percepção do desempenho. Um governo pode ajustar contas públicas e, ainda assim, não conseguir simbolizar “ordem”, por exemplo. Pode reduzir índices criminais e, paradoxalmente, ser percebido como frágil.
Isso porque, no imaginário social (em particular no imaginário social nordestino, do qual o RN não escapa) o Estado é demandado simultaneamente em dois registros, sendo o primeiro como um “gestor técnico” (o que paga salários, faz estradas, equilibra finanças. Mas um psicanalista que se metesse a pensar a política pensaria no segundo registro como uma “figura paterna” (o que impõe autoridade, garante proteção, “coloca ordem”).
Quando a máquina administrativa enfatiza o primeiro registro, abre flanco no segundo. A oposição, então, ocupa esse vazio simbólico.
O retorno do discurso da autoridade
Não somente seria previsível como já podemos observar em movimentos preliminares que candidaturas de perfil mais conservador investiriam na retórica da restauração da autoridade. Isso fica expresso em posições recentes como as de Rogério Marinho ao afirmar que o RN vive “um quadro de desgoverno”, além de afirmar que talvez não fosse o mais popular, mas pelo menos teria “coragem e senso de dever”. Rogério desistiu da candidatura, é verdade, mas essa sombra segue forte.
Aqui, claro, convém evitarmos leituras simplistas. Não se trata apenas de “direita versus esquerda” (ainda que petistas e bolsonaristas trabalhem diuturnamente no país inteiro para reduzir a política a isso). Trata-se de algo mais estrutural: o apelo àquela figura de fantasia, aquela instância que promete interromper o desamparo social. É isso que faz com que esse por que esse discurso de segmentos antipetistas ressurgem mesmo após experiências recentes que nem sempre entregaram o prometido; a sua eficácia não depende da verdade empírica, mas da função que exerce.
Voltando às leituras psicanalíticas, é como se a promessa de ordem funcionasse como um “objeto a”, que representa um objeto de desejo sempre faltante, sempre adiado, mas permanentemente mobilizador. No RN, isso se conecta a elementos concretos: sensação persistente de insegurança, apesar de oscilações estatísticas, crises penitenciárias passadas que ainda deixaram marcas simbólicas, interiorização do crime organizado (como facções se expandindo para grande parte do território), colapso episódico de serviços públicos, e por aí vai.
O candidato que melhor conseguir condensar essas ansiedades numa narrativa simples (“o Estado perdeu o controle — eu vou retomar”) adquire vantagem libidinal, ainda que careça de programa detalhado. Foi isso que Fátima encarnou oito anos atrás.
As oligarquias flexíveis
Outro elemento clássico reaparece: as oligarquias políticas locais — famílias, grupos empresariais, prefeitos com capilaridade regional. Uma das notícias que repercutiram nas semanas passadas foi, por exemplo, o distanciamento de Walter Alves com o governo no qual cumpre papel de vice. As oligarquias, nessa longa transição que passam desde que perderam o trono, claramente não operam mais como blocos rígidos.
As oligarquias agora são, elas próprias, “líquidas”; menos ideológicas, mais pragmáticas, movendo-se conforme viabilidade eleitoral e acesso a fundos, emendas e máquinas partidárias. No passado, as oligarquias eram o que a esquerda costumava chamar de “direita”. Nos tempos em que a direita passou a ser qualquer coisa orbitante em torno do bolsonarismo, as oligarquias no país todo passaram a ser inclusas em categorias como como “forças progressistas”, “campo democrático”, “centro-direita” ou qualquer outra coisa que amenize o constrangimento de vê-las como aliada de primeira hora do petismo (quando este está em boa fase).
As oligarquias, então, perderam poder: Talvez a resposta seja o contrário — ela passou por uma transição bastante sofisticada. Em variados casos, passaram a agir como mediadores entre diferentes entes da federação, bancadas locais e federais, setor produtivo, etc.
A sociedade civil como sintoma e o fantasma do desenvolvimento perdido
Em determinados momentos de maior clamor, diferentes segmentos sociais se levantam, puxando cada qual a corda na sua direção. Mas aqui cabe mais uma inversão psicanalítica: não devemos lê-los apenas como atores conscientes defendendo interesses, e sim como sintomas sociais. Um exemplo disso foi o avanço de pautas morais rígidas, que não indicavam apenas conservadorismo, mas um tipo de ansiedade frente à desagregação social. Da mesma forma, a pressão empresarial por “ambiente de negócios” revela não só racionalidade econômica, mas medo de estagnação econômica já bastante latente.
Servidores públicos, por sua vez, expressam suas demandas não apenas por corporativismo, mas por um ressentimento inflacionário acumulado, e com razão. As classes médias, cá no RN como lá no resto do país, é quem mais tem pagado a conta; a polêmica envolvendo ICMS e energia solar foi claro exemplo disso.
Cada segmento fala de si… mas fala também de uma falta estrutural do Estado. Essa falta se refere a um significante que paira sobre o debate potiguar: desenvolvimento.
Energia eólica, porto-indústria, turismo internacional, ZPEs, hub logístico, exploração petrolífera terrestre… mil e um projetos surgem e desaparecem ciclicamente. Trata-se, como se percebe, de um significante vazio capaz de unificar discursos antagônicos. É como liberais defendendo desburocratização e investimento externo ou progressistas requerendo planejamento estatal com inclusão social. Nenhum candidato consegue dar corpo a isso; também por isso ninguém captura o desejo coletivo desses e de outras frações políticas.
O risco estrutural da sucessão
O Rio Grande do Norte viveu praticamente uma eleição de chapa única em 2022. Só não viverá o mesmo em 26 porque a governadora está em final de mandato; seria, afinal, difícil acreditar que ela seria reeleita, não pelo mérito de seu mandato, mas pelo franco desinteresse (ou incapacidade) de seus opositores?
O final do mandato de Fátima insere a indigestão da questão sucessória, cujo constrangimento fica expresso no desinteresse do vice e dos demais sucessores legais de assumir a governadoria na eventual renúncia da titular. O problema é que todos operam dentro de um mesmo limite comum a todo o quadro político nacional: até querem administrar a crise, mas ninguém quer tocar sua estrutura.
Fátima, como se vê, gere a escassez, enquanto Alysson promete otimizá-la e Rogério vinha culpando inimigos por ela. Nenhum deles, contudo, tocava no que os lacanianos chamam de Real, isto é, o inefável, aquele lugar onde a linguagem não chega, aquele tópico que não pode ser nomeado, então todo mundo finge que não existe: a ausência de um projeto de desenvolvimento, a baixa industrialização, a desigualdade regional, a dependência fiscal da União. Quem procura se impor pela autoridade, pela postura de “administrador” ou qualquer coisa afim, procura na realidade encobrir sua impotência estrutural de tocar num problema que seria básico. Fátima, quando assumiu, era a “professora”; quebrou paradigmas, chegando a um posto raramente ocupado por alguém advindo da classe trabalhadora. Oito anos depois, seu eleitorado termina o mandato se baseando na suposição de que existe um Grande Outro, uma sombra simbólica em Brasília que sabe o que está fazendo e que, eventualmente, irá nos validar. “Se o PAC vier, se a suplementação da Lei Aldir Blanc chegar…”.
Evidentemente, se o estado está abandonado, quebrado, não é propriamente culpa dela. O problema, talvez, seja esse: não é culpa, propriamente, de ninguém. Se fosse, seria bem mais fácil resolver a questão.
Ao fim de tudo, cada candidato procura encobrir o mal-estar do eleitor com suas vestes específicas: um representando a fantasia gerencial; outro que talvez representaria a radicalização ideológica, mas que desistiu (quem sabe porque a radicalização ideológica não seja o cálculo para o momento), um segmento que deverá representar institucionalmente a continuidade, mas sem grandes apelos, senão até aceitando com certo conforto a derrota…
Não há realmente alternância de poder. A escolha que será feita em outubro apontará qual fantasia sustenta a nossa realidade, de estado estrangulado, quebrado, e que se recusa a pensar na saída.








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